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Dinacharya: como começar o dia segundo o Ayurveda

por Marilia Mayorga e Vd. Mateus Macêdo | Vida Veda

Você já ouviu falar de dinacharya? A maioria das pessoas acorda já em estado de reação.
O despertador toca, a mão vai direto para o celular, a mente dispara antes mesmo do corpo entender que o dia começou. Em poucos minutos, já estamos atrasados, tensos, atravessando o início do dia no automático.

Esse modo de viver se tornou tão comum que raramente é questionado, mas o Ayurveda parte da observação: A forma como você começa o dia influencia todo o resto dele, não só em termos de produtividade, mas de saúde, clareza mental e qualidade de presença.
Assim surgem as rotinas diárias ayurvédicas, conhecidas como dinacharya. Elas lembram que viver bem exige ritmo, atenção e coerência com os ciclos da natureza.

Ao longo deste artigo, você vai entender o que é o dinacharya, por que ele ocupa um lugar central no Ayurveda e como essas rotinas diárias podem ser vividas – mesmo em agendas modernas – de forma realista, progressiva e consciente.


Assista ao vídeo que inspirou este artigo
O que fazer ao acordar? | A minha rotina diária


O que é dinacharya?

Se você já ouviu falar de Ayurveda, provavelmente também já ouviu falar de Dinacharya, as rotinas diárias recomendadas para manter a saúde ao longo da vida.
A palavra dinacharya é formada por duas raízes do sânscrito: din, que significa “dia”, e charya, que significa “conduta” ou “hábito”. Dinacharya, portanto, são as condutas diárias que sustentam a saúde ao longo do tempo.

Primeiramente, é importante entender um ponto-chave do Ayurveda: dinacharya não é uma lista de tarefas, mas uma proposta de presença. Ou seja, um convite para sair do modo automático e voltar a habitar o corpo.

O que exatamente eu devo fazer ao acordar?

O Ashtanga Hrdayam, um dos textos clássicos do Ayurveda, dedica um capítulo inteiro às rotinas diárias. Ele começa justamente pelo momento do despertar e segue, passo a passo, pelas práticas que estruturam o início do dia.

Essas orientações não surgiram de teorias abstratas, pois nasceram da observação direta do corpo humano, da natureza e dos efeitos do tempo sobre a saúde, ao longo de muitos séculos.
A proposta não é rigidez nem perfeição, mas sequência, consciência e repetição.
A seguir, você vai conhecer oito práticas de dinacharya e entender como introduzi-las na sua vida de forma possível, progressiva e respeitosa com a sua realidade.

1. Melhor horário para acordar: Brahma Muhurta

A primeira orientação do Capítulo 2 do Ashtanga Hrdayam é acordar no Brahma Muhurta.

O texto afirma que aquele que deseja proteger a vida e a duração da vida deve despertar nesse período. Não como um mandamento moral, nem como uma regra rígida, mas como uma orientação baseada na observação dos ritmos naturais da vida.

A princípio, para entender essa recomendação, é importante lembrar de algo básico: biologicamente, somos animais diurnos.
Durante milhões de anos, a sobrevivência humana esteve ligada à luz do dia. Caçávamos, nos deslocávamos e interagíamos quando havia claridade, e buscávamos abrigo quando escurecia. Viver de forma noturna só se tornou possível muito recentemente, com a invenção da luz artificial. O corpo do animal humano não foi projetado para isso.

O Brahma Muhurta não é um horário fixo no relógio, mas corresponde a uma janela de tempo antes do nascer do sol, tradicionalmente descrita como os dois muhurtas que antecedem o amanhecer. Cada muhurta é uma unidade clássica de tempo com duração aproximada de 48 minutos.

Na prática, considerando um nascer do sol por volta das 6h, esse período costuma ocorrer aproximadamente entre 4h24 e 5h12 da manhã. Esse horário varia ao longo do ano, justamente porque está ligado ao movimento do sol, e não ao relógio.

Esse momento do dia é especial porque o ambiente ainda está silencioso, a mente tende a estar menos agitada e o mundo externo ainda não tomou conta da atenção. É um horário tradicionalmente associado à contemplação, à escuta interna e ao estabelecimento do tom do dia.

O mais importante é acordar com consciência

Aqui existe um ponto fundamental: mais importante do que cumprir um horário “perfeito” é como você acorda.

Se acordar no Brahma Muhurta significa dormir mal, reduzir drasticamente o tempo de sono ou viver em estado de exaustão, essa prática perde o sentido. O Ayurveda nunca propõe sacrificar um pilar da saúde em nome de outro.

Na prática, isso significa buscar aproximações possíveis, ou seja, acordar um pouco mais cedo, evitar despertar já em estado de urgência, não pegar o celular imediatamente, permitir alguns minutos de silêncio antes de entrar no ritmo externo do dia. Tudo isso já é implementar o dinacharya.

O estado interno cultivado nesse momento inicial tende a se espalhar para o restante do dia. Quando o dia começa com presença, o corpo e a mente carregam essa qualidade para tudo o que vem depois.

2. Observar o corpo ao despertar

Depois de acordar, antes de qualquer outra prática, a proposta é observar o corpo.

Esse momento não exige técnica, esforço ou conhecimento prévio e pode durar apenas dois minutos. O convite é perceber:
Como foi o sono?
Como está a respiração?
O corpo acordou pesado ou leve?
A mente está clara ou já acelerada?

Em vez de sair da cama já em estado de reação, trata-se de pausar por alguns instantes e reconhecer como você está naquele dia.

Olhar no espelho pode fazer parte desse processo, sendo na prática, o movimento de observar os olhos, a pele, a língua, o rosto, o humor com que o dia começa. Essa leitura inicial do corpo é uma forma prática de autoconhecimento.

No Ayurveda, a auto-observação é a base de todo o cuidado. Sem perceber o estado real do corpo e da mente, nenhuma rotina faz sentido.

Esse gesto cotidiano treina atenção e sensibilidade, fazendo com que, com o tempo, desenvolva-se discernimento, ou seja, a capacidade de reconhecer quando o corpo pede estímulo, quando pede mais descanso ou quando precisa de contenção.

Em outras palavras, quando você começa o dia se escutando, as escolhas que vêm depois tendem a ser mais coerentes, cuidadosas e alinhadas com o seu estado real.

3. Higiene pessoal como forma de cuidado

No dinacharya, a higiene matinal não é apenas uma questão estética ou social, sendo compreendida como um processo de preparo do corpo para o dia.
Durante a noite, o corpo realiza processos naturais de eliminação e reorganização, o que faz com que existam resíduos acumulados.

Fazem parte desse cuidado básico ações simples e cotidianas: urinar, evacuar, lavar o rosto, remover secreções dos olhos, escovar os dentes.

A raspagem da língua se tornou uma prática bastante popular entre pessoas que estudam ou praticam Ayurveda. No entanto, é importante saber que ela não aparece de forma unânime nos textos clássicos. O Ashtanga Hrdayam, por exemplo, não descreve explicitamente essa prática no capítulo de dinacharya, enquanto outros textos, como o Charaka Samhita, a mencionam.

Você pode optar por raspar a língua, fazendo isso antes ou depois da escovação e utilizando um raspador próprio ou até mesmo uma colher separada para esse fim. O movimento deve ser sempre suave. O objetivo não é machucar a língua, mas remover a saburra que se forma durante a noite, que é um resíduo que pode indicar a presença de ama, substâncias mal processadas pelo organismo.

4. Oleação diária como parte da nutrição do corpo

Depois da higiene, o dinacharya propõe a oleação, conhecida como abhyanga, que consiste na aplicação de óleo morno sobre o corpo.

A oleação atua de forma profunda. Ela nutre os tecidos, ajuda a reduzir o aumento natural de vata dosha – especialmente com o passar dos anos – melhora a percepção corporal, favorece estabilidade e cria uma sensação interna de segurança e acolhimento. Não por acaso, é descrita nos Samhitas como uma prática ligada à saúde, à longevidade e à qualidade de vida.

É importante compreender que a oleação não é sinônimo de massagem. No Ayurveda, o foco não está na técnica, mas na capacidade do óleo de nutrir o corpo. O toque pode ser simples, lento e consciente.

Diferentes formas de oleação no dia a dia

Quando se fala em oleação, muitas pessoas pensam apenas na oleação de corpo inteiro. No entanto, existem diferentes formas de aplicação, com objetivos específicos para cada pessoa.

O abhyanga propriamente dito é a oleação do corpo todo, mas existem também práticas mais localizadas, como a oleação da cabeça (shiro abhyanga), dos pés (pada abhyanga), das orelhas (karna puranam) e a aplicação de óleo nas narinas (pratimarsha nasya). Há ainda formas de cuidado da boca, como a oleação ou bochecho terapêutico (kavala ou gandusha).

Não é necessário (e nem sempre indicado) fazer todas essas práticas todos os dias, portanto, priorizar a oleação da cabeça, das narinas e das orelhas já oferece inúmeros benefícios.

De forma geral, utiliza-se óleo de gergelim, preferencialmente puro, prensado a frio, ou óleos medicados específicos. O óleo precisa ser levemente aquecido antes da aplicação, o que potencializa sua absorção e gera o efeito desejado.

Contra-indicações da oleação

A oleação diária só é recomendada para pessoas saudáveis.

Se a digestão não está funcionando bem, o corpo também não consegue assimilar adequadamente o óleo. Por isso, pessoas com digestão comprometida, com agravamento de kapha ou que passaram recentemente por terapias profundas de limpeza, como o panchakarma, não devem realizar oleação sem orientação especializada. Os profissionais que nós indicamos estão na Dr. Integra.

A lógica é a seguinte: quando o corpo não digere bem, ele também não absorve bem – nem por dentro, nem pela pele. Nesse contexto, a oleação pode gerar mais desequilíbrio do que benefício.

5. Movimento: diário e divertido

Depois da oleação, na rotina de dinacharya vem o movimento.
A atividade física – chamada de vyayama – é indicada como uma forma cotidiana de manter o corpo desperto, leve e funcional.

Movimentar-se todos os dias é uma recomendação clara.
Isso não significa treino intenso, nem exige academia.
O objetivo é gerar calor interno, estimular a circulação, apoiar a digestão e acordar o corpo para o dia.

Caminhar, praticar yoga, correr, dançar, pedalar, fazer musculação ou qualquer outra atividade que provoque transpiração e sensação de prazer já cumpre esse papel.
O melhor movimento é aquele que te faz suar e é divertido.

Idealmente o movimento deve ser feito pela manhã, que é horário de kapha dosha, quando o corpo está mais estável, mas mais importante do que seguir regras rígidas de horário é praticar o movimento diariamente.

6. Banho: momento de integração

Depois da oleação e do movimento, o banho entra como um momento de integração. Ele remove o excesso de óleo, refresca o corpo e ajuda a assentar a energia mobilizada pelas práticas anteriores.

O banho não é apenas limpeza física, mas uma transição simbólica: do cuidado consigo para a entrada consciente no dia.

Segundo o Ayurveda, a água quente não deve ser usada para lavar a cabeça, porém há benefícios para o corpo o uso de água morna, especialmente após a oleação e o movimento.

7. Orações, oferendas e conexão

Depois das práticas que envolvem diretamente o corpo – acordar, observar, higienizar, olear, movimentar e integrar – o dinacharya também convida a um gesto mais sutil: a conexão.

Esse momento pode se expressar de muitas formas. Pode ser uma oração, uma meditação, alguns minutos de silêncio, a contemplação da natureza ou um simples gesto de gratidão ao iniciar o dia.

Não há imposição de forma, técnica ou crença. A conexão pode ser com uma deidade, com a natureza, com o universo ou com a própria vida. O ponto central não é como se faz, mas o que se lembra.

Esse gesto diário serve como um lembrete: a vida não se resume às demandas externas, às tarefas e aos papéis que desempenhamos. Existe algo maior sustentando a experiência – e reconhecê-lo, ainda que por poucos instantes, ajuda a orientar o dia com mais sentido, presença e humildade.

8. Ética cotidiana também faz parte do dinacharya

Não existe rotina de dinacharya completa sem considerar a forma como nos comportamos no mundo.

As rotinas diárias propostas pelo Ayurveda não se limitam ao corpo. A segunda metade do capítulo de dinacharya é dedicada às condutas éticas, emocionais e sociais que sustentam a saúde no dia a dia – um ponto que muitas vezes é esquecido quando se fala dessas práticas.

Entre essas orientações estão agir com gentileza, falar a verdade com cuidado, cultivar calma, desenvolver compaixão, evitar ações prejudiciais e manter clareza e autocontrole nas relações.

O Ayurveda parte de uma compreensão de que não adianta cuidar do corpo se o comportamento cotidiano adoece a mente. A forma como reagimos, como tratamos os outros e como lidamos com conflitos impacta diretamente nosso equilíbrio interno.

Respeitar todos os seres vivos, evitar a violência – inclusive a violência sutil, nas palavras e atitudes – e buscar relações mais conscientes também fazem parte do cuidado com a saúde.

O dinacharya, nesse sentido, não é apenas uma rotina pessoal, mas uma forma de viver com mais coerência, responsabilidade e harmonia – consigo e com o mundo.

Dinacharya é um começo de dia, e também um começo de vida

O dinacharya não precisa ser cumprido à perfeição. Ele não é um manual rígido, mas uma bússola.

Mesmo pequenas mudanças já transformam profundamente a forma como o dia se desenrola.

Quando olhamos para a estrutura do dinacharya, fica claro que o Ayurveda não é uma coleção de rituais complicados. Ele é, acima de tudo, uma forma de recuperar o senso de ritmo natural da vida.

Começar o dia segundo o Ayurveda é aprender a despertar em sintonia com o mundo, observar antes de agir, cuidar dos sentidos, fortalecer o corpo, cultivar clareza interna e viver com mais ética e coerência.

Dinacharya é menos sobre “fazer tudo” e mais sobre fazer com consciência.
E, muitas vezes, é nesse cuidado simples com o início do dia que uma nova forma de viver começa a se desenhar.

Quer aprofundar sua jornada no Ayurveda?

Se você deseja ir além da leitura e aprender o dinacharya com base nos textos clássicos, de forma aplicada à vida real, o Invicta é um caminho.

O primeiro módulo do Invicta é inteiramente dedicado ao dinacharya. Nele, você aprende os fundamentos dessa rotina diária e como incorporar essas práticas ao cotidiano.

É um convite para transformar conhecimento em vivência e começar, passo a passo, a introduzir o Ayurveda na sua vida.
Conheça o Invicta em: https://vidaveda.org/invicta-curso-pratico-de-ayurveda/

Perguntas Frequentes

1. O que é dinacharya?

Dinacharya é o conjunto de rotinas diárias descritas pelo Ayurveda para sustentar a saúde ao longo da vida. Ele orienta como acordar, cuidar do corpo, dos sentidos e da mente, respeitando os ritmos naturais, com foco em prevenção, equilíbrio e consciência no dia a dia.

2. Preciso seguir o dinacharya à risca todos os dias?

O dinacharya não é uma regra rígida, mas uma bússola. O Ayurveda trabalha com adaptação progressiva, respeitando o momento de vida, a saúde e a rotina de cada pessoa. Pequenas mudanças feitas com constância já trazem benefícios reais.

3. É obrigatório acordar cedo para praticar dinacharya?

Não de forma rígida. O Ayurveda valoriza acordar antes do nascer do sol, mas nunca às custas de privação de sono. Dormir bem vem primeiro. O mais importante é acordar com menos pressa, menos estímulos externos e mais presença.

4. Oleação diária é indicada para todo mundo?

A oleação diária é indicada para pessoas saudáveis como forma de nutrição dos tecidos e equilíbrio do corpo. Pessoas com digestão comprometida, excesso de kapha ou que passaram por terapias intensivas devem buscar orientação antes de praticá-la.

5. Posso adaptar o dinacharya à minha rotina moderna?

Sim. O dinacharya foi pensado a partir da observação da vida real. Ele pode ser adaptado à rotina contemporânea, desde que a intenção seja sair do modo automático e cultivar mais atenção, ritmo e cuidado no início do dia.


Este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não substitui avaliação médica, nutricional ou ayurvédica individualizada. Nele não fazemos diagnóstico nem indicamos tratamentos para casos específicos. Se você apresenta sintomas persistentes, usa medicamentos, está grávida, amamentando ou tem condição crônica, procure acompanhamento profissional antes de mudanças na dieta, sono, exercícios ou uso de suplementos/fitoterápicos.


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