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A falta de presença em uma sociedade mentalista

Por Rodrigo Raposo

Tempo estimado de leitura: 9 minutos

Vivemos em uma época de falta de presença. Uma época onde se valoriza mais o intelecto e a produção do que a percepção e o sentir. Aprendemos desde pequenos que pensar é mais importante do que sentir, que raciocinar vale mais do que perceber, que produzir vale mais do que simplesmente estar. Somos ensinados a desenvolver inteligência, memória, capacidade lógica e desempenho intelectual, mas quase ninguém nos ensina a habitar o próprio corpo ou a perceber a realidade sem que tudo passe primeiro pelo filtro dos pensamentos.

Talvez por isso tantas pessoas sintam que vivem cansadas, ansiosas e desconectadas de si mesmas. A cabeça nunca para. Existe sempre um problema para resolver, uma preocupação para antecipar, uma meta para alcançar, algo para ocupar a mente, que nunca pode ficar simplesmente quieta. Muitas vezes criamos conversas imaginárias dentro da cabeça, mesmo durante momentos que deveriam ser de descanso, tudo com o propósito de manter a mente ocupada. O curioso é que nos acostumamos tanto com esse funcionamento que ele passou a parecer normal. 

O Ayurveda, o Yoga e diversas tradições contemplativas descrevem esse fenômeno de uma forma bem interessante: quando acreditamos que somos apenas nossa mente, deixamos de perceber aquilo que existe além dela. Em outras palavras, parece que deixamos de experimentar a presença. 

A neurociência moderna também começa a investigar esse fenômeno. Estudos utilizando ressonância magnética funcional mostram que nossa mente permanece ativa mesmo quando não estamos executando nenhuma tarefa específica, funcionando em um padrão chamado Default Mode Network (DMN). Quando essa rede permanece excessivamente ativada, aumenta a tendência à ruminação, ansiedade, autocrítica e ao sofrimento psicológico (Brewer et al., 2011).

Neste artigo vamos compreender

O que significa viver em uma sociedade mentalista;
Como o excesso de identificação com a mente afeta a saúde;
O que o Ayurveda e o Yoga entendem por presença;
Por que a presença não pode ser explicada apenas com palavras;
A relação entre silêncio, consciência e saúde mental;
O que a ciência moderna descobriu sobre atenção plena e funcionamento cerebral;
Como começar a sair do mentalismo no dia a dia.

A sociedade nos ensina a “morar na cabeça”

Se existe uma característica marcante da cultura contemporânea, talvez seja a enorme valorização da atividade intelectual. Desde cedo aprendemos que pensar rápido, resolver problemas complexos, memorizar conteúdos e desenvolver raciocínio lógico são sinais de inteligência e sucesso. As disciplinas mais valorizadas costumam ser aquelas associadas ao pensamento analítico, enquanto atividades como dança, pintura, música, artes manuais ou expressão corporal frequentemente são vistas como hobbies ou entretenimento, e não como formas legítimas de desenvolvimento humano. 

Essa lógica acaba produzindo uma consequência à longo prazo: passamos a acreditar que a nossa mente é a parte mais importante de quem somos. O corpo é um mero veículo para transportar o cérebro de uma reunião para outra. Quando sentimos fome, cansaço ou tensão muscular, muitas vezes ignoramos esses sinais porque acreditamos que basta “aguentar mais um pouco”. Até mesmo o movimento corporal acaba sendo reduzido a uma tarefa da agenda. Muitas pessoas passam dez horas sentadas diante de um computador e acreditam que uma hora de academia, no fim do dia, resolve toda essa desconexão com o corpo. 

O problema é que o organismo não funciona dessa maneira. O corpo foi feito para se mexer continuamente, mudar de postura, respirar profundamente, perceber o ambiente e interagir com o mundo. Quando passamos grande parte da vida apenas habitando nosso intelecto, começamos lentamente a perder contato com aquilo que o próprio corpo tenta nos comunicar.

O corpo fala antes da mente compreender

De acordo com o Ayurveda, a vida é uma interação entre corpo (śarīra), sentidos (indriyas), mente (sattva) e seu Eu / Consciência (ātma). A saúde não depende apenas do funcionamento adequado de cada uma dessas dimensões, mas também da harmonia entre elas. Quando uma passa a dominar completamente as demais, o equilíbrio começa a se perder.

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Hoje, pesquisas na área da neurociência reforçam essa visão integrada. Estudos sobre a chamada interocepção – a capacidade de perceber os sinais internos do próprio organismo – mostram que pessoas com maior consciência corporal tendem a apresentar melhor regulação emocional, menor ansiedade e maior capacidade de lidar com situações estressantes (Craig, 2009). Ou seja, quanto mais aprendemos a ouvir o corpo, menos dependemos da mente para interpretar absolutamente tudo o que acontece conosco. 

Talvez por isso muitas práticas contemplativas não comecem tentando mudar pensamentos, mas simplesmente convidando a pessoa a perceber a própria respiração, o contato dos pés com o chão ou o ritmo natural do corpo. Antes de transformar a mente, é preciso voltar a habitar o corpo.

Afinal, o que significa presença?

Essa é uma pergunta complexa, pois a resposta costuma ser dada com as ferramentas erradas.

Quando alguém pergunta a você qual a sensação de estar presente, normalmente se espera ouvir palavras como alegria, paz, leveza ou plenitude. Mas percebe que todas essas descrições ainda pertencem ao universo da mente?  São mera interpretações baseadas em experiências percebidas pelos sentidos e organizadas de forma cognitiva.

Paramahansa Yogananda utilizava uma comparação muito interessante. Imagina alguém que nunca tenha visto a fruta manga. Você pode descrever sua cor, seu formato e textura. São percepções físicas e fáceis de descrever e compreender. Mas se perguntarem a você qual o sabor da manga, nenhuma explicação sua permitirá que a pessoa conheça, de fato, o seu sabor, pois você irá revelar suas sensações, percepções pessoais. Esse conhecimento só pode ser adquirido quando a pessoa finalmente experimenta a manga. 

A presença funciona de maneira semelhante. Ela não pode ser totalmente compreendida por definições intelectuais, pois ela está além da própria atividade mental. Enquanto tentamos explicar a presença apenas com conceitos, convenções, permanecemos presos ao mecanismo que buscamos transcender. 

Quem percebe que a mente está agitada?

Existe uma pergunta simples que pode mudar a maneira como você enxerga a si mesma. Quando você diz: “Minha mente está acelerada”, quem exatamente está fazendo essa observação? 

Se existe alguém capaz de perceber a agitação da mente, então esse observador não teria como ser a própria mente, certo?

Essa distinção aparece de maneira muito clara nos Yoga Sūtras de Patañjali. Logo no segundo verso do livro um da obra, encontramos uma das definições mais conhecidas do Yoga:

योगश्चित्तवृत्तिनिरोधः ॥२॥
yogaścittavṛttinirodhaḥ ||2||
“Yoga é a cessação das oscilações da mente.”

O objetivo dessa definição não é eliminar os pensamentos, mas mostrar que existe uma dimensão da consciência que permanece intacta quando os pensamentos surgem e desaparecem. A presença não cria o silêncio, ela simplesmente continua existindo quando o ruído mental deixa de ocupar toda sua atenção.

Silêncio é presença e não é algo que você produz

Existe um equívoco muito comum quando falamos em meditação ou presença. Muitas pessoas acreditam que precisam fabricar um estado especial de consciência ou alcançar uma experiência extraordinária. Na prática, acabam transformando o silêncio em mais uma meta para a mente conquistar. 

Porém, o silêncio não é algo que você deva adicionar na sua vida. O silêncio é aquilo que permanece quando você deixa de alimentar seus pensamentos, preocupações e identificações. O silêncio surge quando você deixa de criar ruídos, assim como você não coloca o sol no céu de um dia nublado, mas apenas remove as nuvens. 

Sob essa perspectiva, a presença não possui cor, textura, cheiro ou emoção específica. Todas essas características pertencem aos sentidos e à mente. A presença é aquilo que observa todas essas experiências sem necessariamente se confundir com elas. 

A ciência também começou a estudar a presença

Durante muito tempo, estados meditativos foram considerados apenas experiências espirituais difíceis de investigar cientificamente. Hoje, esse cenário mudou bastante.

Diversos estudos demonstram que práticas regulares de mindfulness reduzem a atividade da Default Mode Network, região cerebral associada à ruminação, ao excesso de pensamentos sobre si mesma e à ansiedade. Ao mesmo tempo, aumentam a conectividade entre áreas relacionadas à atenção, regulação emocional e consciência corporal (Brewer et al., 2011; Tang, Hölzel & Posner, 2015). 

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Essas mudanças não significam que a mente desaparece. Elas indicam que a pessoa deixa de ser completamente dominada pelos próprios pensamentos. Há um espaço maior entre o pensamento e a identificação com ele. E talvez seja nesse espaço que a experiência da presença começa a surgir.

Como sair do mentalismo?

Quando você pensa em querer sair do mentalismo, você acaba de entrar nele. Se alguém diz a você para não pensar em brigadeiro, qual a primeira imagem que vem à sua cabeça agora? Brigadeiro! A resposta bem curta e simples é: não pensar!

Isso significa criar oportunidades para experimentar a vida de maneira mais direta. Isso pode acontecer durante uma caminhada sem o celular, prestando atenção ao contato dos pés com o chão, ao ambiente ao seu redor. Pode acontecer enquanto você prepara uma refeição percebendo os aromas, temperaturas e movimento das mãos, ou durante alguns minutos de respiração consciente ou observado seus próprios pensamentos sem tentar interrompê-los ou julgá-los. 

Essas práticas parecem pequenas, mas produzem uma mudança importante: aos poucos, a mente deixa de ocupar o centro absoluto da experiência. Você continua pensando, planejando e resolvendo problemas, mas deixa de acreditar que você é apenas aquilo que pensa. 

Talvez combater o mentalismo não signifique abandonar a mente, mas apenas colocá-la novamente em seu devido lugar: uma ferramenta para viver, mas não a dona da sua existência.

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Perguntas frequentes

1 – O que é mentalismo?

É a tendência de colocar a mente no centro da experiência humana, acreditando que pensar é mais importante do que perceber, sentir e simplesmente estar presente.

2 – Estar presente significa parar de pensar?

Não. Os pensamentos continuam existindo. A diferença é que você deixa de se identificar completamente com eles.

3 – O Ayurveda fala sobre presença?

Sim. O Ayurveda entende que a saúde depende da integração entre corpo, sentidos, mente e Consciência (ātman), e não apenas do funcionamento isolado da mente.

4 – O que os Yoga Sūtras dizem sobre isso?

Patañjali define Yoga como a cessação das oscilações da mente, indicando que existe uma dimensão da consciência que permanece além do fluxo constante dos pensamentos.

5 – A ciência moderna estuda a presença?

Sim. Pesquisas em neurociência mostram que práticas contemplativas reduzem a ruminação mental, melhoram a regulação emocional e aumentam a consciência corporal (Brewer et al., 2011; Tang et al., 2015).

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