Por Rodrigo Raposo
Tempo de leitura: 9 minutos
O Ayurveda entende o metabolismo por uma lente bem específica.
Na sociedade de hoje existe uma crença de que o corpo humano deveria funcionar como uma máquina. Acordar todos os dias com a mesma energia, sentir fome nos mesmos horários, produzir igualmente durante todo o dia e dormir quando decidirmos dormir. Mas basta você observar sua própria experiência para perceber que não é assim que acontece. Existem horários em que nos sentimos naturalmente mais ativos, outros em que a concentração diminui, momentos em que a fome aparece com força e períodos do dia em que o corpo parece pedir desaceleração.
Porém, o Ayurveda observa esse fenômeno há milhares de anos. Muito antes de se observarem os relógios biológicos, os os hormônios circadianos ou as pesquisas sobre cronobiologia, os especialistas em Ayurveda já descreviam a existência de oscilações naturais do organismo ao longo do dia, associando esses ciclos à predominância dos três doṣas: vāta, pitta e kapha.
Curiosamente, a medicina moderna vem chegando a conclusões semelhantes. Hoje sabe-se que praticamente todas as funções fisiológicas – digestão, temperatura corporal, produção hormonal, atenção, metabolismo e sono – obedecem a ritmos circadianos controlados pelo cérebro e influenciados pela luz, alimentação e hábitos diários (Bass & Takahashi, 2010).
Se você vem se sentindo desregulada, cansada, talvez não seja porque você esteja fazendo tudo errado. Talvez você esteja apenas tentando “nadar contra o relógio biológico do seu próprio corpo”.
Neste artigo vamos compreender o metabolismo segundo o Ayurveda e:
– Como os doṣas se alternam ao longo do dia;
– Por que existe um horário natural para comer, dormir e se movimentar;
– O que é āma e por que a má digestão pode gerar doenças;
– A relação entre alimentação noturna e qualidade do sono;
– O que a ciência moderna descobriu sobre os ritmos circadianos;
– Como voltar a ouvir os sinais do próprio corpo.
Seu corpo não funciona de forma linear
Existe uma expectativa moderna de produtividade constante. Esperamos acordar às seis da manhã com disposição, trabalhar com alta performance até a noite, fazer exercícios em qualquer horário e dormir imediatamente quando decidimos. Porém não é assim que nosso metabolismo funciona.
O Ayurveda descreve o corpo como parte da natureza. Da mesma forma que existem ciclos de luz e escuridão, estações do ano, marés e variações climáticas, também existem ciclos fisiológicos internos que influenciam nosso metabolismo, apetite, sono e energia. O organismo não mantém o mesmo estado durante as vinte e quatro horas do dia. Ele oscila continuamente.
Hoje, a cronobiologia moderna confirma essa observação. Diversos hormônios, incluindo o cortisol, melatonina, insulina e hormônio do crescimento, apresentam picos e quedas ao longo do dia, influenciando metabolismo, sono e disposição física (Walker, 2017).
O ciclo do kapha: entre 6h e 10h (horário do peso e inércia)
Segundo o Ayurveda, o período da manhã, aproximadamente entre seis e dez horas, é dominado pelo kapha doṣa.
Kapha possui qualidades de estabilidade, lentidão, peso e estrutura. Isso explica porque tantas pessoas relatem dificuldades para sair da cama, sensação de inércia ao acordar ou necessidade de um tempo maior para “ligar o motor”.
Mas nem sempre isso significa que exista algo errado com você. O corpo está, naturalmente, em um período de maior estabilidade e menos atividade metabólica.
Permanecer dormindo além desse horário pode aumentar ainda mais a sensação de peso e lentidão. Muitas pacientes relatam que, quando dormem até muito tarde, acordam mais cansadas do que quando despertam antes das 6h.
O ciclo de pitta: entre 10h e 14h (horário do pico digestivo)
Entre esse período das 10h às 14h ocorre o predomínio do pitta doṣa, o princípio associado ao calor, transformação e ao metabolismo. Esse período é o momento natural do corpo para fazer a digestão, pois seu fogo digestivo (chamado de agni) está naturalmente mais forte.
Inclusive, isso explica por que, para muitas pessoas, a fome do almoço é mais intensa do que a fome do jantar. O organismo simplesmente está mais preparado para processar alimentos nesse horário (isso, claro, se você não estiver com algum desequilíbrio no sistema digestivo).
A crononutrição moderna vem produzindo achados bastante interessantes sobre esse tema. Estudos mostram que a sensibilidade à insulina, a resposta metabólica e a eficiência digestiva apresentam variações ao longo do dia, sendo geralmente mais favoráveis durante esse período diurno (Garaulet & Gómez-Abellán, 2014).
Em outras palavras, o Ayurveda já sugeria há cinco mil anos algo sobre o metabolismo que a ciência começa a demonstrar: nossa maior refeição deveria ocorrer no horário do sol à pino.
O ciclo de vāta: entre 14h e 18h (horário do movimento)
Dentro desse período, o vāta doṣa torna-se predominante. Esse é o princípio do movimento, da atividade mental e comunicação. Nosso corpo naturalmente tende a buscar o movimento.
Muitas pacientes percebem que esse é o período de maior produtividade. Outras observam aumento da ansiedade, dispersão ou dificuldade de se concentrar.
Isso porque o vāta é responsável pelo movimento no corpo. Pensamentos, impulsos nervosos, circulação e atividade mental dependem dele. Quando equilibrado, ele traz clareza mental. Quando desequilibrado, ele pode gerar agitação, preocupação e instabilidade.
O ciclo do kapha: entre 18h e 22h (horário da desaceleração e sono)
Após o pôr do sol, no período das dezoito e vinte e duas horas, o organismo retorna ao período de kapha.
É justamente nesse momento que muitas pessoas começam a bocejar, sentir os olhos pesados e perceber uma desaceleração natural do corpo. Esse horário é a janela fisiológica do sono. Por isso eu recomendo às minhas pacientes que façam sua última refeição do dia até o sol se pôr, uma vez que após esse horário, as atividades digestivas ficam mais lentas.
O ciclo de pitta: entre 22h e 02h (horário de um pico digestivo diferente)
Dentro desse período das dez da noite às duas da madrugada ocorre novamente a predominância de pitta.
Dessa vez, porém, o metabolismo não está voltado para a digestão alimentar, mas sim para processos mais internos. O organismo realiza reparos celulares, processamento metabólico, regulação hormonal, metabolização de informações que deverão se tornar aprendizado e memória. Ou seja, atividade que o corpo costuma fazer quando estamos dormindo.
Porém, se a pessoa se mantém acordada neste horário (e a maioria faz isso), ela costuma relatar sentir uma “segunda energia” depois das dez ou onze da noite. Elas perdem o sono, sentem vontade de trabalhar, estudar e “atacar a geladeira” de madrugada. Por isso há a sensação de que a pessoa é noturna e produz mais à noite.
O problema é que esse estado de vigília pode competir com processos importantes de recuperação do organismo. Hoje sabemos que a privação do sono altera metabolismo, imunidade, regulação glicêmica e inflamação sistêmica (Irwin, 2015).
Ou seja, para finalizar o ciclo do dia, das duas da madrugada às seis da manhã o corpo retorna ao período vāta que, por ser responsável pelo movimento, é o horário em que o Ayurveda recomenda que as pessoas despertem para o dia (entre quatro e seis da manhã).
O que acontece com o seu metabolismo, segundo o Ayurveda, quando come tarde da noite?
Quando uma refeição pesada é consumida próximo ao horário de dormir, o organismo precisa utilizar energia térmica e mecânica para realizar a digestão justamente quando deveria estar priorizando processos reparadores.
Segundo o Ayurveda, isso interfere no metabolismo, pois pode gerar uma digestão inadequada (ou até mesmo a falta de digestão) e, consequentemente, formar āma. A medicina moderna observa fenômenos semelhantes. refeições noturnas volumosas estão associadas a pior qualidade do sono, refluxo gastroesofágico e alterações metabólicas (St-Onge et al., 2016).
Muitas pessoas que apresentam sudorese noturna, sono agitado ou sensação de acordarem cansadas podem estar sofrendo as consequências de uma digestão noturna excessiva.
Leia também: Chás para melhorar sua digestão
Āma e o metabolismo no Ayurveda
Āma é uma palavra em sânscrito que significa literalmente “cru”, ou seja, aquilo que não foi cozido, ou digerido. Āma não representa apenas alimentos mal digeridos (ou não digeridos), mas também representa tudo aquilo que o organismo não conseguiu transformar adequadamente.
Na prática clínica, isso pode se manifestar como:
sensação de peso;
lentidão;
excesso de muco;
fadiga;
digestão ruim;
sensação de acordar cansado, mesmo antes das 6h;
desconfortos inespecíficos.
O conceito lembra aquilo que a medicina moderna vem investigando em relação à inflamação corporal e às alterações metabólicas decorrentes de maus hábitos alimentares.
Metabolismo no Aurveda: Seu corpo sabe mais do que as regras
Umas das mensagens mais incríveis do Ayurveda, quando se fala em metabolismo, seja a valorização do bom senso e da auto-observação. Por isso enfatizo a importância de comer quando existe fome real e prestar atenção aos sinais do próprio organismo, em vez de seguir regras rígidas impostas externamente.
Vivemos em uma época em que praticamente tudo vem acompanhado de prescrições: a hora certa de acordar, quantidade ideal de água para ingerir, horário perfeito para se exercitar, melhor horário para comer etc.
Por que paramos de ouvir nosso próprio corpo para dar mais atenção às regras de terceiros? Isso não significa ignorar a ciência ou abandonar orientações clínicas. Significa recuperar uma habilidade que talvez tenhamos perdido: a capacidade de perceber fome, sono, sede e cansaço.
Como você acorda diz muito sobre como você dormiu
A maneira como você acorda é uma medida da qualidade do sono da noite anterior. Se você desperta cansada, pesada ou com dificuldade de sair da cama, mesmo quando você acorda ainda “no horário vāta”, talvez o problema não esteja na manhã. Talvez ele tenha começado na noite anterior, com refeições pesadas e próximas ao horário de dormir, com a agitação mental noturna etc.
O Ayurveda sempre enxergou o sono como um dos pilares da saúde. Muito mais importante do que saber quantas horas você dorme por noite é saber como você se sente ao acordar de manhã.
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Perguntas Frequentes
Não necessariamente. O Ayurveda valoriza os sinais do corpo, especialmente a presença da fome verdadeira.
Em muitos casos, sim. O período do meio-dia é considerado o momento de maior força digestiva.
Depende da quantidade, do horário e da digestão individual, mas refeições muito pesadas próximas ao sono podem prejudicar tanto a digestão quanto a qualidade do sono.
É tudo aquilo que o organismo não conseguiu processar adequadamente, seja em termos digestivos ou metabólicos.
Uma pergunta simples ajuda bastante: como você acorda pela manhã?