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Se você já sentiu o coração disparar de repente, a respiração ficar curta, o corpo tremer – como se algo muito grave estivesse prestes a acontecer, mesmo que não haja nenhum perigo aparente, este artigo é para você.
Por Rodrigo Raposo
Em muitos casos, isso não está relacionado a um perigo real, mas a uma ativação intensa do sistema nervoso.
A Síndrome do Pânico é uma das manifestações mais comuns dessa resposta. Sendo assim, quem vive essa experiência, a sensação é bastante real, intensa e muitas vezes assustadora.
Mas entender o que está acontecendo no corpo pode ser o primeiro passo para recuperar a sensação de segurança.
O que é a síndrome do pânico?
A síndrome do pânico é caracterizada por episódios súbitos de medo intenso, conhecidos como ataques de pânico.
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Esses episódios podem surgir de forma inesperada e geralmente incluem sintomas como:
– taquicardia
– sudorese
– falta de ar
– tontura
– tremores
– sensação de perda de controle
– medo de morte
Mesmo sem um perigo externo evidente, o corpo reage como se estivesse diante de uma ameaça real.
Com o tempo, muitas pessoas passam a desenvolver medo de ter novas crises, o que pode fazer com que pessoas que sofrem da síndrome do pânico evitem lugares ou situações – impactando significativamente a qualidade de vida.
Por que isso acontece?
Do ponto de vista fisiológico, a síndrome do pânico está relacionada a uma hiperativação do sistema nervoso, especialmente dos circuitos ligados ao medo.
Estruturas cerebrais como a amígdala desempenham um papel importante na detecção de ameaças. Dessa forma, em pessoas com transtorno do pânico, esse sistema pode se tornar mais sensível, disparando respostas mesmo na ausência de um perigo real.
Além disso, fatores como:
– estresse crônico
– experiências traumáticas
– predisposição genética
– padrões de pensamento ansioso
– podem contribuir para o desenvolvimento do quadro.
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Na prática, é como se o “alarme interno” do corpo estivesse sensível demais – disparando com facilidade.
O que diz a ciência sobre o transtorno do pânico?
Estudos em neurociência mostram que pessoas com transtorno do pânico apresentam alterações na regulação emocional e na resposta do medo.
Pesquisas indicam hiperatividade da amígdala e alterações na comunicação com o córtex pré-frontal, região responsável por modular respostas emocionais (Gorman et al., 2000).
Além disso, estudos sugerem que a sensibilidade a sinais corporais – como batimentos cardíacos e respiração – pode estar aumentada, levando a uma interpretação catastrófica dessas sensações (Clark, 1986).
Esse modelo explica por que sensações físicas normais podem ser interpretadas como perigosas, desencadeando um ciclo de ansiedade que culmina no ataque de pânico.
Tratamento de acordo com a medicina moderna
As abordagens mais utilizadas pela medicina moderna para tratar a síndrome do pânico incluem:
Psicoterapia
A terapia cognitivo-comportamental (TCC) é uma das abordagens mais estudadas.
Ela ajuda a identificar e modificar padrões de pensamento que contribuem para as crises, além de trabalhar a exposição gradual às situações evitadas.
Estudos mostram que a TCC pode reduzir significativamente a frequência e intensidade dos ataques de pânico (Hofmann & Smits, 2008).
Respiração consciente
Técnicas de respiração, práticas corporais e intervenções baseadas no corpo ajudam a reduzir a ativação fisiológica.
Abordagens como a desenvolvida por Peter A. Levine enfatizam a importância de trabalhar diretamente com o sistema nervoso para restaurar a sensação de segurança.
Medicação (quando necessário)
Em alguns casos, o uso de medicamentos costuma ser indicado especialmente quando os sintomas são intensos.
Antidepressivos e ansiolíticos são recomendados pela academia científica para ajudar a regular a atividade do sistema nervoso, sempre com acompanhamento médico.
Como entender a síndrome do pânico pelo Ayurveda?
Entrando na área da minha especialidade, na perspectiva do Ayurveda, distúrbios como a síndrome do pânico pode ser compreendidos a partir do desequilíbrio dos doṣas, especialmente o vāta e rajas.
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Como cuidar da sua saúde mental e emocional com Ayurveda?
O vāta é um doṣa do corpo que está relacionado ao movimento e ao sistema nervoso. Já o rajas é um doṣa relacionado à atividade mental. Quando agravados, podem gerar:
– medo excessivo
– ansiedade
– instabilidade emocional
– pensamentos acelerados
Além disso, o Ayurveda reconhece o papel da desconexão com a realidade (prajñāparādha, em sânscrito), que ocorre quando há uma falha na percepção, julgamento e ação.
O Carakasaṃhitā, um tratado médico escrito há 5 mil anos, diz que a causa de todas as doenças vem do uso inadequado dos sentidos e seus objetos, da desconexão com a realidade e o efeito do tempo.
इत्यसात्म्येन्द्रियार्थसंयोगः, प्रज्ञापराधः, परिणामश्चेति त्रयस्त्रिविधविकल्पा हेतवो विकाराणां; समयोगयुक्तास्तु प्रकृतिहेतवो भवन्ति ||४३||
Interpretações distorcidas das sensações corporais – como perceber uma aceleração cardíaca como um risco iminente de morte – podem ser entendidas como uma forma de prajñāparādha.
Cuidando do vāta, do rajas e do sistema nervoso
No tratamento pelo Ayurveda é comum propormos estratégias que ajudam a estabilizar o sistema nervoso e reduzir a instabilidade do vāta e do rajas, como:
manter uma rotina regular (sono, alimentação, horários fixos)
consumir alimentos quentes e cozidos
evitar excesso de estímulos (informação, telas, estresse)
evitar o consumo de cafeína (café, chimarrão, refrigerantes de cola, chás preto, verde e mate, energéticos)
meditação
respiração consciente
oleação nasal (feita sob orientação de um terapeuta Auyurveda)
oleação na cabeça (feita sob orientação de um terapeuta Ayurveda)
Essas medidas podem ajudar a criar uma base de estabilidade física e mental.
Síndrome do pânico e saúde: uma visão integrada
A síndrome do pânico mostra como mente e corpo estão profundamente conectados.
O que começa como uma resposta fisiológica pode se transformar em um ciclo de medo, interpretação e reação.
Ao mesmo tempo, esse ciclo também pode ser interrompido.
Porém, quando entendemos o funcionamento do sistema nervoso, desenvolvemos consciência corporal e adotamos práticas que promovem estabilidade são passos importantes nesse processo.
Conclusão
A síndrome do pânico não é sinal de fraqueza, mas uma resposta do corpo que ficou sensível demais ao perigo.
Ou seja, sistema nervoso, quando sobrecarregado, pode passar a reagir de forma desproporcional, gerando experiências intensas e difíceis.
Mas essa mesma capacidade de resposta também pode ser regulada.
Com orientação terapêutica, práticas consistentes e maior compreensão do próprio corpo, é possível recuperar gradualmente a sensação de segurança. E muitas vezes, esse caminho começa com algo simples: aprender a reconhecer que, naquele momento, o corpo está reagindo – mas você está segura.
Perguntas Frequentes
Sim, é possível ter grande melhora e até remissão completa dos sintomas. Ou seja, com tratamento adequado – seja com a medicina moderna ou com o Ayurveda – muitas pessoas deixam de ter crises.
Não. Apesar da sensação intensa de perigo, o ataque de pânico não leva à morte, pois o que acontece é uma ativação exagerada do sistema de alerta do corpo.
Os sintomas podem ser parecidos (como dor no peito e taquicardia), o que gera muita confusão. Por isso, especialmente nas primeiras crises, é importante buscar avaliação médica para descartar causas físicas. Após isso, fica mais fácil reconhecer o padrão do pânico.
Sim, com práticas que apaziguem o vāta e o rajas, como rotina regular, alimentação adequada e oleação corporal sob orientação terapêutica, podem ajudar a reduzir a instabilidade do sistema nervoso.
Este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não substitui avaliação médica, nutricional ou ayurvédica individualizada. Nele não fazemos diagnóstico nem indicamos tratamentos para casos específicos. Se você apresenta sintomas persistentes, usa medicamentos, está grávida, amamentando ou tem condição crônica, procure acompanhamento profissional antes de mudanças na dieta, sono, exercícios ou uso de suplementos/fitoterápicos.