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Candidíase de repetição: como tratar com o Ayurveda

Por Marilia Mayorga e Vd. Mateus Macêdo | Vida Veda

A candidíase é uma infecção causada por leveduras do gênero Candida.
Ela pode se manifestar de forma localizada (como na boca, pele ou região genital) ou, em situações específicas, evoluir para quadros invasivos mais graves.

Na prática clínica, porém, a maioria das pessoas associa candidíase à forma vulvovaginal, que é extremamente comum. Estima-se que cerca de 75% das mulheres terão ao menos um episódio ao longo da vida.

Ao longo deste artigo você vai entender:
– o que é candidíase
– quais são os tipos mais comuns
– por que ela pode se tornar recorrente
– como a medicina moderna trata
– qual o tratamento indicado pelo Ayurveda
– e como reduzir o risco de recorrência


Assista ao vídeo que inspirou este artigo
Como acabar com a candidíase? | Chega de sofrimento 


O que é candidíase?

Existem mais de 200 espécies de Candida descritas.
Mas só uma pequena parte costuma causar doença em humanos: cerca de 15 a 20 espécies têm relevância clínica.

A espécie mais comum é a Candida albicans.
Essa proporção muda conforme o contexto e o local estudado. Em candidíase invasiva, por exemplo, a C. albicans pode responder por cerca de 44% a 70% dos casos.

Já na candidíase vulvovaginal, a C. albicans predomina na maioria dos casos.
Em quadros recorrentes (ou após exposições repetidas a tratamentos), costuma haver um aumento relativo das espécies não-albicans.

A Candida pode estar presente naturalmente em mucosas como intestino, boca e vagina.
Em equilíbrio, ela não causa doença. O problema surge quando o ambiente favorece sua multiplicação.

Se isso parece estranho (“como assim eu tenho um fungo e está tudo bem?”), vale lembrar que o corpo humano não é um ambiente estéril. Ele é um ecossistema.

Para ilustrar esse conceito, algumas estimativas sugerem algo perto de 1:1 em número de células x número de bactérias no corpo humano. Isso significa, aproximadamente, 30 trilhões de células humanas e 38 trilhões de células bacterianas em um adulto típico.
Essa comparação é sobre bactérias porque elas dominam em número. Mas o corpo também abriga muitos outros seres microscópicos, como vírus, fungos e arqueias.

Diante disso, quando falamos em tratar a candidíase, a pergunta principal deixa de ser “como eu elimino o fungo?” e passa a ser:
o que alterou o equilíbrio do ambiente, permitindo que esse micro-organismo se multiplicasse demais a ponto de gerar doença?

Essa mudança de pergunta já aproxima a lógica moderna da visão ayurvédica.

Quais são os tipos de candidíase?

No dia a dia, quando as pessoas dizem “candidíase”, quase sempre estão falando de candidíase vulvovaginal.
Mas a Candida pode se manifestar em várias regiões do corpo.
Para organizar com clareza, dá para pensar em dois grandes grupos:

a) Candidíase localizada

Acontece quando a hiperproliferação ocorre em um local específico. As regiões mais comuns incluem:
– Vulva e vagina (candidíase vulvovaginal)
– Glande do pênis e prepúcio (balanite/balanopostite)
Pode ocorrer em uma parcela dos homens ao longo da vida (estimativas em torno de 3% a 11%), com maior risco em não circuncidados e em alguns contextos clínicos.
– Boca e garganta (sapinho)
Mais comum em bebês, usuários de prótese dentária, pessoas em uso de antibióticos/corticoides e em situações de imunossupressão.
– Pele e dobras (intertrigo)
Pode ocorrer em axilas, virilha, abaixo das mamas e entre os dedos.
Costuma aparecer quando há umidade, atrito e calor, e é mais comum em casos de obesidade e diabetes.

Importante pensar que “localizada” não significa “leve”. Significa apenas que está restrita a uma região.

b) Candidíase sistêmica (invasiva)

Acontece quando a infecção não está “num lugar só”. Ela pode atingir a corrente sanguínea e órgãos, o que é chamada de candidemia.
Em geral, é um cenário hospitalar e grave, exigindo tratamento médico imediato.

A candidemia é uma das formas mais importantes de candidíase invasiva.
Ela tem impacto clínico relevante em pessoas internadas, especialmente em UTI, em uso de cateter venoso, antibióticos de amplo espectro e em contextos de imunossupressão.

Candidíase é IST/DST?

Tecnicamente, a candidíase vulvovaginal não é classificada como IST/DST.
Ela pode acontecer mesmo sem vida sexual ativa e, em geral, não é considerada uma infecção adquirida por relação sexual.

Ao mesmo tempo, quando há candidíase com inflamação local, pode existir irritação da mucosa e maior fragilidade de barreira (microlesões/microtraumas), o que pode aumentar a vulnerabilidade a outras infecções que entram por mucosa.

Além disso, como os sintomas da candidíase podem se parecer com os de outras infecções (inclusive ISTs), se houver dúvida, recorrência, e outros sintomas associados, vale investigar com avaliação profissional.

Sintomas mais comuns de candidíase vulvovaginal

Os sintomas típicos incluem:
– coceira (prurido);
– ardência e desconforto local;
– dor durante a relação sexual (dispareunia);
– sensibilidade ao toque;
– corrimento branco, espesso, por vezes descrito com aparência de “leite talhado”.

Esses sinais podem sugerir candidíase, mas não são exclusivos.
Vaginose bacteriana, tricomoníase, dermatites/irritações e outras condições podem causar sintomas parecidos e, por isso, quando os sintomas persistem, se repetem ou se intensificam, avaliação profissional faz parte do cuidado.

Se você busca um olhar mais completo, idealmente, a avaliação combina exame clínico, entendimento do contexto e confirmação laboratorial quando necessário, em vez de tratar o sintoma e entrar no ciclo “melhora e volta”.
Para quem deseja esse acompanhamento com abordagem integrativa, indicamos profissionais que atuam nesse modelo, disponíveis na Dr. Integra.

Candidíase de repetição (quando vira um ciclo)

Quando os episódios se tornam frequentes, falamos em candidíase de repetição. Em diretrizes atuais, ela costuma ser definida como 3 ou mais episódios sintomáticos em menos de 1 ano.

Nessa fase, vale olhar além do episódio e investigar o que está tornando o ambiente propício. Alguns fatores merecem atenção como o uso recente/frequente de antibióticos, diabetes/alterações de glicose, e outros fatores do hospedeiro (incluindo alterações da imunidade).

Muitos casos também se associam à disbiose, que é quando o microbioma de um lugar do corpo perde estabilidade.

No caso da vagina, um sinal comum de disbiose é a redução de lactobacilos protetores, que ajudam a manter um pH mais ácido e dificultam o crescimento exagerado de outros microrganismos. Quando essa proteção cai, o ambiente pode ficar mais favorável a inflamações e infecções recorrentes, não só por fungos, mas também por outros microrganismos com potencial patogênico.

Relação entre disbiose intestinal e candidíase

A Candida também pode estar presente no intestino. Em algumas pessoas, especialmente em quadros recorrentes, o trato gastrointestinal pode funcionar como um “reservatório”, facilitando reintroduções e a manutenção do ciclo.

Além disso, quando o intestino está desorganizado (por exemplo, após antibióticos, mudanças importantes na dieta ou estresse crônico), isso pode influenciar a regulação imunológica e a estabilidade do ecossistema como um todo, facilitando o ambiente vaginal também perder equilíbrio.

Em resumo: candidíase de repetição quase nunca é só “um problema local”. Muitas vezes, é um sinal de que o corpo está com o ambiente (vaginal e/ou intestinal) instável.

Tratamento mais comum na medicina moderna

Na medicina moderna, o tratamento mais comum para candidíase (especialmente a candidíase vulvovaginal) costuma ser o uso de medicamentos antifúngicos, por via oral ou tópica/intravaginal.
Em geral, são da classe dos azóis.
Em muitos casos, isso é necessário e apropriado. E, em quadros complicados ou invasivos, é indispensável.

O ponto de atenção não é “antifúngico é ruim”, mas quando a lógica vira apenas eliminar o fungo, sem entender o que está sustentando o desequilíbrio, o quadro pode entrar em repetição.

Quando vira ciclo:

quadro de candidíase → trata com antifúngico → melhora;
o ambiente continua desorganizado → os sintomas voltam;

em algum momento, pode entrar antibiótico (por outro motivo, ou por suspeita de infecção bacteriana) → antibiótico altera a microbiota protetora → aumenta o risco de candidíase;
volta o antifúngico → melhora de novo → e o ciclo se retroalimenta.

Como o Ayurveda enxerga a candidíase

Segundo o Ashtanga Hrdayam, um dos principais textos clássicos do Ayurveda, a causa de todas as doenças do aparelho urinário e reprodutor femininos são geradas por alimentação inadequada, chamada de dushtha bhojanat.

Isso não significa “alimento proibido”. Significa, na prática, que a alimentação não está compatível com a sua capacidade de digestão e metabolismo naquele período.
Isso pode acontecer, por exemplo, quando a pessoa:
– come sem fome ou um alimento pesado demais
– faz as refeições em horários irregulares, beliscando o dia todo
– come e deita em seguida
– mistura alimentos incompatíveis (virudha ahara)
– exagera em açúcar e alimentos ultraprocessados
– dorme pouco
– vive em estresse constante

Sendo assim, o ponto central não é o alimento isolado, mas a capacidade de metabolizar o que foi ingerido.

Dentro desse raciocínio, dois conceitos ajudam a entender como o Ayurveda organiza quadros como a candidíase:

1) Krimi roga

Krimi é o termo usado no Ayurveda para descrever processos de infestação ou infecção no corpo.
Ele inclui desde manifestações de vermes até processos que hoje a gente reconheceria como proliferação excessiva de micro-organismos.

No Ashtanga Hrdayam, krimi é descrito em quadros internos ou externos, mas em ambos os casos o manejo costuma seguir três pilares:
– retirar o que está favorecendo o desequilíbrio
– reorganizar o ambiente do corpo
– tratar de forma compatível com a intensidade do quadro

2) Agni mandya

Agni representa a capacidade de transformação do corpo, ou seja, digerir, metabolizar, processar e assimilar.
Quando essa capacidade está enfraquecida ou lenta, chamamos de agni mandya.

Esse conceito é fundamental porque conecta a digestão ao equilíbrio do corpo como um todo, se o corpo não digere bem, favorece o desequilíbrio e quando o ambiente interno perde estabilidade, aumentam as chances de hiperproliferação de micróbios.

Aqui, o raciocínio ayurvédico encontra a ideia moderna de ecossistema de que não é apenas o micro-organismo que determina o quadro, mas o contexto em que ele está.
Por isso, a pergunta inicial no Ayurveda não costuma ser “como eliminar o fungo?”, e sim:o que causou o desequilíbrio a ponto de favorecer esse crescimento excessivo?

Esse é o conceito de nidana parivarjana, que na prática significa remover o que gerou o problema e não apenas tentar resolver o sintoma. Isso muda completamente a estratégia terapêutica, especialmente nos casos de candidíase recorrente.

Como tratar candidíase de acordo com o Ayurveda

Se a candidíase não é só “um fungo para eliminar”, o cuidado não pode ser só pontual.
No Ayurveda, a estratégia costuma seguir dois eixos complementares:

1) Agni dipana
Fortalecer o agni, como descrito anteriormente, é restaurar a eficiência digestiva e metabólica como eixo de estabilidade.

2) Ama pachana
Ama é um conceito funcional que descreve resíduos metabólicos gerados quando a digestão e o metabolismo não ocorrem de forma eficiente.
Em linguagem contemporânea, poderíamos aproximar a ideia de inflamação de baixo grau e sobrecarga metabólica persistente.

Ama pachana é o processo de metabolizar e eliminar aquilo que ficou mal processado, de fazer uma “desintoxicação”.

O que fazer na prática

Se você convive com candidíase recorrente, algumas medidas podem ajudar:
– registrar a alimentação por 7 a 14 dias
– observar como se sente após as refeições (peso, distensão, sonolência, desejo intenso por doce)
– reduzir excesso de açúcar e ultraprocessados, especialmente nas fases de recorrência
– regular o sono
– manter atividade física moderada e consistente
– reduzir estresse crônico

Nenhuma dessas medidas substitui tratamento médico quando indicado. Mas elas ajudam a reduzir a chance de o quadro voltar, porque atuam na causa do problema.

Em outras palavras: cuidar dos 4 Pilares da Saúde – alimentação, sono, movimento e silêncio – é a base para sustentar melhora nos casos de candidíase de repetição.

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Perguntas Frequentes

1) Candidíase é DST/IST?

Não costuma ser classificada como IST.
A candidíase vulvovaginal geralmente está relacionada a alterações da microbiota, uso de antibióticos, variações hormonais e glicemia e não necessariamente à transmissão sexual.

2) O problema é a Candida em si?

A Candida pode ser parte da microbiota normal.
O problema é a hiperproliferação associada a perda de equilíbrio local.

3) Por que a candidíase é recorrente?

Porque muitas vezes trata-se apenas o episódio agudo.
Fatores como antibióticos, diabetes, alterações metabólicas e desequilíbrio da microbiota aumentam o risco de recorrência.
Na leitura ayurvédica, isso se relaciona a agni enfraquecido e acúmulo de ama.

4) Agni é o mesmo que imunidade?

Não.
Agni é um conceito mais amplo: digestão, metabolismo e capacidade de regulação do organismo, incluindo, mas não se limitando, à resposta imune.

5) Posso usar antifúngico?

Sim. O antifúngico pode ser necessário.
O ponto é que, sem reorganizar os fatores de base, a candidíase pode voltar.

6) Quando a candidíase exige atendimento urgente?

Se houver febre persistente, imunossupressão importante, suspeita de infecção sistêmica ou piora rápida do quadro, é necessária avaliação médica imediata.


Este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não substitui avaliação médica, nutricional ou ayurvédica individualizada. Nele não fazemos diagnóstico nem indicamos tratamentos para casos específicos. Se você apresenta sintomas persistentes, usa medicamentos, está grávida, amamentando ou tem condição crônica, procure acompanhamento profissional antes de mudanças na dieta, sono, exercícios ou uso de suplementos/fitoterápicos.


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