Vermes, protozoários, piolhos e outros parasitas acompanham os seres humanos há milhares de anos. O Ayurveda reuniu muitos desses quadros sob o conceito de krmi, mas sua classificação é bem diferente daquela que usamos atualmente.
Por Rodrigo Raposo
Tempo de leitura: 13 minutos
A ideia de ter um organismo vivendo dentro do nosso corpo causa certo desconforto, não é mesmo? Talvez por isso as parasitoses estejam cercadas de tantas crenças: criança que range os dentes está com verme, vontade de comer doce é sinal de parasita, todo mundo deveria tomar vermífugo uma vez por ano, lua cheia aumenta a atividade dos vermes e por aí vai. Algumas dessas ideias são antigas, enquanto outras surgiram mais recentemente. O problema é que, quando tudo vira “verme”, acabamos colocando no mesmo grupo organismos, formas de transmissão e doenças muito diferentes.
A medicina moderna define parasita como um organismo que vive sobre ou dentro de um hospedeiro e obtém dele os recursos necessários para sobreviver. Entre os parasitas capazes de provocar doenças em seres humanos estão os protozoários, organismos unicelulares microscópicos; os helmintos, que incluem diferentes grupos de vermes e os ectoparasitas, que vivem na superfície do corpo, como piolhos e alguns ácaros. CDC
Parasitas, vermes e krmi
Antes de mais nada, preciso alertar para o fato de que parasitose não é sinônimo de verminose. Giardia, por exemplo, é um protozoário, não um verme. Ascaris lumbricoides, popularmente conhecido como lombriga, é um helminto. Piolho é um artrópode ectoparasita. Todos podem ser chamados de parasitas, mas biologicamente são muito diferentes.
O Ayurveda também percebeu que aquilo que chamava de krmi não correspondia a uma única doença. O Madhava Nidana, o tratado de medicina diagnóstica do Ayurveda, apresenta diferentes grupos, lugares de manifestação e sintomas. Algumas descrições lembram parasitoses reconhecidas atualmente; outras pertencem a uma forma de compreender a doença que não possui correspondência direta com a parasitologia moderna. O interessante é justamente observar onde essas duas maneiras de olhar para o problema se encontram e onde não se encontram.
Neste artigo, vamos ver:
– o que são parasitas e qual é a diferença entre protozoários, helmintos e ectoparasitas;
– como as parasitoses são transmitidas;
– quais são os sintomas mais comuns e por que algumas pessoas não apresentam sintoma algum;
– quais parasitoses intestinais são mais conhecidas;
– como é feito o diagnóstico e por que nem todo parasita encontrado precisa ser tratado;
– quais medicamentos são utilizados e por que não existe um único “vermífugo” para todos os parasitas;
– o que o Ayurveda chama de kṛmi e como o Mādhavanidāna classifica esses organismos;
– quais sinais descritos nos textos clássicos lembram algumas parasitoses conhecidas atualmente;
– e até onde podemos aproximar kṛmi da parasitologia moderna sem forçar equivalências.
Parasitas não são tudo a mesma coisa
Na medicina moderna, uma primeira divisão importante é entre protozoários, helmintos e ectoparasitas. Entre os protozoários intestinais encontramos Giardia duodenalis, Entamoeba histolytica e Cryptosporidium. Os helmintos incluem nematódeos, cestódeos e trematódeos, grupos nos quais estão parasitas conhecidos como Ascaris lumbricoides, Enterobius vermicularis, Ancylostoma, Strongyloides stercoralis e as tênias. Fora do intestino ainda existem parasitoses como doença de Chagas, leishmaniose, malária, esquistossomose e filariose. Por isso, falar genericamente em “parasita” diz muito pouco sobre a doença que uma pessoa possui. CDC
A forma de transmissão também varia. Alguns parasitas chegam ao organismo pela ingestão de água ou alimentos contaminados por material fecal. Outros possuem formas infectantes presentes no solo e conseguem penetrar através da pele. Alguns dependem de insetos vetores. Há ainda transmissão por alimentos de origem animal, contato próximo entre pessoas e outras vias específicas de determinadas espécies.
A giardíase é um bom exemplo da primeira situação. Giardia vive no intestino e suas formas infectantes são eliminadas nas fezes. Água, alimentos, mãos, superfícies ou objetos contaminados podem participar da transmissão. Uma pessoa infectada pode apresentar diarreia, gases, cólicas, náusea e fezes gordurosas e malcheirosas; em alguns casos há má absorção e perda de peso. Mas também existem pessoas infectadas que permanecem assintomáticas. CDC
Já os helmintos transmitidos pelo solo incluem Ascaris lumbricoides, Trichuris trichiura e os ancilostomídeos. Eles continuam sendo um problema importante de saúde pública em muitas regiões onde existem dificuldades de acesso a saneamento e higiene. A repercussão depende do parasita e da intensidade da infecção: pode haver dor abdominal, diarreia, perda nutricional, anemia e comprometimento do crescimento, enquanto infecções leves podem produzir poucos sintomas. Organização Mundial da Saúde
Os sintomas não são os mesmos
Isso também mostra por que não existe uma lista universal de “sintomas de verme”. Coceira anal, principalmente noturna, faz pensar em Enterobius vermicularis. Diarreia, distensão e fezes gordurosas podem aparecer na giardíase. Anemia ferropriva pode ocorrer em infecções importantes por ancilostomídeos. Uma carga elevada de Ascaris pode provocar complicações intestinais. Strongyloides pode permanecer durante anos no organismo e, em pessoas imunossuprimidas, produzir formas graves da doença. O contexto muda bastante de um parasita para outro.
E há outro detalhe importante: encontrar um organismo nas fezes não significa necessariamente que ele esteja causando uma doença. Existem protozoários intestinais considerados não patogênicos, como Entamoeba coli e Endolimax nana. Eles podem indicar exposição fecal, mas não são considerados responsáveis pelos sintomas e, segundo o CDC, não precisam ser tratados. Se uma pessoa com dor abdominal ou diarreia apresenta apenas um desses organismos no exame, é preciso continuar procurando a causa dos sintomas em vez de simplesmente atribuir tudo ao “parasita”. CDC
O Ayurveda também não colocou todos os krmis no mesmo grupo
O Madhava Nidana começa dizendo:
क्रिमयश्च द्विधा प्रोक्ता बाह्याभ्यन्तरभेदतः |
बहिर्मलकफासृग्विड्जन्मभेदाच्चतुर्विधाः ||१||
Os krmis são inicialmente divididos em dois grandes grupos: externos (bahya) e internos (abhyantara). Depois são classificados segundo diferentes origens ou ambientes relacionados a excreta, kapha dosha, tecido sanguíneo e matérias fecais.
Essa classificação não é taxonômica como a moderna. O texto não está separando protozoários, nematódeos, cestódeos e artrópodes de acordo com anatomia, genética ou ciclo de vida. Ele está classificando krmis segundo o lugar onde aparecem, o meio no qual se desenvolvem e o tipo de alteração que provocam.
Quando o tratado descreve os krmis externos, por exemplo, fala de organismos muito pequenos, com muitas patas, encontrados nos cabelos e pelos, associados a coceira e lesões na pele. Entre os nomes utilizados aparecem yuka e liksha, tradicionalmente associados a piolhos e lêndeas. Aqui estamos claramente muito mais próximos daquilo que hoje chamaríamos de ectoparasitose.
Nos krmis internos, a descrição muda. O texto menciona febre, alteração da coloração corporal, dor, fraqueza, vertigem, aversão aos alimentos e diarreia como manifestações possíveis:
O Ayurveda não procura um único “sintoma de verme”. Ele descreve um quadro que pode envolver digestão, evacuação, força, apetite e estado geral.
Isso fica ainda mais evidente na descrição daqueles relacionados às fezes. O Madhava Nidana descreve diferentes formas, tamanhos e cores e associa sua presença a alterações intestinais, dor abdominal, distensão, emagrecimento, palidez, enfraquecimento de agni e gudakaṇḍū, prurido anal.
Esse último sintoma chama atenção porque continua sendo clinicamente relevante na parasitologia moderna. O prurido perianal, principalmente à noite, é uma manifestação clássica da enterobíase. Isso não permite concluir que um dos purishaja krmis descritos pelo Madhava Nidana seja necessariamente Enterobius vermicularis. Permite apenas reconhecer que médicos antigos estavam observando manifestações que também aparecem em parasitoses conhecidas hoje.
O que faz alguém ter parasitose?
Aqui aparece uma das diferenças mais importantes entre os dois sistemas.
O Ayurveda relaciona o desenvolvimento de krmis a hábitos alimentares e digestivos. Entre eles estão comer antes de terminar a digestão da refeição anterior, consumo frequente de determinados alimentos de sabor doce e azedo, ausência de atividade física, sono durante o dia e alimentação incompatível:
अजीर्णभोजी मधुराम्लनित्यो द्रवप्रियः पिष्टगुडोपभोक्ता |
व्यायामवर्जी च दिवाशयानो विरुद्धभुक् संलभते क्रिमींस्तु ||४||
Mas isso não quer dizer que comer doce cria um helminto no intestino. Uma pessoa adquire Ascaris ao ingerir ovos infectantes; Giardia é adquirida pela ingestão de seus cistos; outros parasitas possuem outras vias de transmissão. Não existe evidência de que “açúcar cause vermes”.
A medicina moderna, porém, também reconhece que exposição e manifestação clínica não são exatamente a mesma coisa. Estado imunológico, idade, nutrição, carga parasitária e características do próprio organismo infectante interferem na maneira como uma infecção se apresenta. No caso da giardíase, por exemplo, o CDC orienta que história clínica, estado nutricional e condição imunológica sejam considerados no manejo. CDC
É possível, portanto, aproveitar a pergunta ayurvédica sem distorcer a parasitologia: como está o terreno em que essa doença está acontecendo? Isso não substitui a pergunta sobre qual parasita está presente e como ele foi adquirido.
Nem toda dor de barriga é parasitose
Uma das consequências da ideia popular de “verme” seja atribuir uma quantidade enorme de sintomas aos parasitas. Dor abdominal, vontade de comer doce, cansaço, irritabilidade, bruxismo, olheiras, barriga inchada, falta de apetite e coceira acabam entrando no mesmo pacote.
Parasitoses realmente podem produzir alguns desses sintomas, mas nenhum deles, isoladamente, permite o diagnóstico. Dor abdominal, diarreia, gases e distensão podem ocorrer em inúmeras doenças gastrointestinais. Perda de peso pode ter dezenas de causas. Anemia também. Até o prurido anal, bastante característico da enterobíase, possui outros diagnósticos possíveis.
Por isso o diagnóstico moderno procura identificar o agente quando necessário. O exame parasitológico de fezes continua sendo utilizado, mas existem também testes de antígenos, imunofluorescência e métodos moleculares para determinados parasitas. Dependendo da suspeita, pode ser necessário examinar mais de uma amostra de fezes em dias diferentes, já que a eliminação de ovos, cistos ou outros elementos parasitários nem sempre ocorre de forma constante. O CDC recomenda, para o exame de ovos e parasitas em determinadas investigações, três ou mais amostras coletadas em dias separados. CDC
Na giardíase, por exemplo, podem ser utilizados microscopia, testes de antígeno, imunofluorescência e métodos moleculares; o CDC também recomenda a coleta de três amostras ao longo de vários dias quando se está investigando Giardia. CDC
O exame, porém, precisa ser interpretado junto com a clínica. Um resultado positivo para um protozoário não patogênico não explica automaticamente uma diarreia, assim como um exame negativo isolado nem sempre encerra a investigação quando a suspeita é forte.
E como se trata?
Não existe um “remédio para parasita” que resolva todas as parasitoses. O tratamento depende do organismo identificado ou suspeitado, da idade, do quadro clínico, de gestação, imunossupressão e de outras condições da pessoa.
Albendazol e mebendazol são medicamentos importantes contra diversos helmintos transmitidos pelo solo, e a OMS utiliza esses fármacos em programas de tratamento preventivo de populações de risco em áreas endêmicas. Isso é uma estratégia de saúde pública baseada na epidemiologia local e não significa que toda pessoa deva, por conta própria, tomar albendazol periodicamente. Organização Mundial da Saúde
Outros parasitas exigem outros medicamentos. Giardíase, estrongiloidíase, esquistossomose, teníase e enterobíase, por exemplo, não devem ser tratadas como se fossem a mesma doença. Até quando dois parasitas respondem ao mesmo medicamento, dose e duração podem ser diferentes.
Isso explica por que a prática de “tomar um vermífugo de tempos em tempos para limpar o organismo” precisa ser colocada em contexto. Existem situações nas quais a desparasitação periódica é recomendada como política de saúde pública, principalmente em áreas com determinada prevalência de helmintos. É bem diferente de transformar isso numa regra para qualquer adulto ou criança, independentemente de exposição, epidemiologia e diagnóstico.
Parasitoses no Brasil
No Brasil, parasitoses intestinais continuam relevantes, embora sua distribuição seja muito desigual. Uma revisão sistemática com estudos publicados entre 2000 e 2018 encontrou prevalência agrupada de 46% para parasitoses intestinais nas populações estudadas, mas com heterogeneidade de 99% e forte concentração dos trabalhos em grupos específicos, principalmente crianças. Portanto, esse número não deve ser lido como “46% dos brasileiros têm parasitas hoje”. Ele mostra, sobretudo, como essas infecções ainda podem ser frequentes em determinados contextos e como as condições sociais e sanitárias fazem diferença (Celestino et al., 2021). PubMed
E isso nos leva a uma parte do tratamento que recebe menos atenção que o comprimido: evitar a reinfecção. Dependendo do parasita, isso envolve água segura, saneamento, lavagem adequada das mãos, cuidado com alimentos, uso de calçados, manejo de contatos e outras medidas específicas. Tratar repetidamente sem corrigir uma fonte contínua de exposição pode transformar a parasitose em um problema recorrente.
Onde o Ayurveda pode entrar nessa história?
O primeiro cuidado é não transformar o tratamento de krmi em substituto da parasitologia. Se existe suspeita de parasitose, especialmente diante de diarreia persistente, perda de peso, anemia, sangue nas fezes, desidratação ou comprometimento importante do estado geral, identificar a causa continua sendo fundamental.
A contribuição do Ayurveda está em ampliar algumas perguntas. O paciente possui apenas o parasita ou está com uma digestão lenta? Como estão apetite e digestão? O quadro reaparece depois do tratamento? Quais hábitos e condições podem estar favorecendo novas exposições?
Há mais de mil anos, os médicos ayurvédicos já reconheciam que certos organismos podiam viver na superfície ou no interior do corpo, apresentar diferentes formas, ocupar diferentes regiões e produzir quadros clínicos distintos. A parasitologia moderna conseguiu avançar muito além disso: hoje conseguimos identificar espécies, conhecer seus ciclos de vida, compreender suas formas de transmissão, enxergar organismos microscópicos e utilizar medicamentos dirigidos contra eles.
Uma abordagem não precisa apagar a outra. Se o Ayurveda nos ajuda a perguntar como essa pessoa está reagindo à doença, a parasitologia moderna permite responder algo que os textos clássicos não tinham como responder com a mesma precisão: qual organismo está ali e como podemos eliminá-lo com segurança?
Por que você não deveria tomar vermífugo por conta própria?
A ideia de “tomar um vermífugo só por garantia” parece inofensiva, mas não é uma boa estratégia. Em primeiro lugar, não existe um medicamento capaz de tratar todas as parasitoses: albendazol, mebendazol, ivermectina, praziquantel, nitazoxanida e outros antiparasitários possuem indicações diferentes, e alguns nem sequer atuam contra determinados protozoários ou helmintos.
Tomar o medicamento errado pode simplesmente não tratar a infecção e ainda criar a falsa impressão de que o problema foi resolvido. Além disso, esses fármacos podem causar efeitos adversos, possuem contraindicações e exigem cuidados especiais em situações como gestação, doença hepática, infância ou uso concomitante de outros medicamentos. Há ainda um problema menos óbvio: tratar empiricamente todos os sintomas digestivos como “verme” pode atrasar o diagnóstico verdadeiro.
Dor abdominal, diarreia, anemia, emagrecimento, distensão e alterações do apetite também aparecem em doenças inflamatórias intestinais, doença celíaca, intolerâncias alimentares, infecções bacterianas e diversas outras condições. E mesmo quando um exame de fezes encontra um protozoário, isso não significa automaticamente que ele seja responsável pelos sintomas — algumas espécies intestinais são consideradas não patogênicas e não precisam de tratamento. Por isso, diante de suspeita de parasitose, a conduta mais segura é avaliar qual organismo provavelmente está envolvido, se realmente existe indicação de tratar e qual medicamento, dose e duração são apropriados.
A exceção são programas coletivos de desparasitação recomendados pelas autoridades sanitárias em populações e regiões específicas, que seguem critérios epidemiológicos próprios.
Perguntas Frequentes
Não. Verminoses são doenças provocadas por helmintos, ou seja, vermes parasitas. O termo parasitose é mais amplo e inclui também doenças causadas por protozoários e ectoparasitas.
Não necessariamente. Traduzir kṛmi sempre como “verme” estreita demais o conceito. Os textos descrevem tanto kṛmis externos quanto internos e incluem organismos de tamanhos e características diferentes, alguns descritos inclusive como muito sutis ou não visíveis.
Os textos reconhecem organismos muito pequenos e, em algumas descrições, invisíveis. Isso é interessante historicamente, mas não significa que o Ayurveda tivesse desenvolvido uma teoria microbiológica equivalente à moderna.
Não. O Mādhavanidāna relaciona determinados alimentos doces e preparações com melaço ao desenvolvimento de alguns kṛmis dentro de sua fisiopatologia, mas isso não significa que desejo por doces seja um teste para parasitose.
Não é um sinal confiável para diagnosticar parasitose. Bruxismo possui várias causas e não deve ser utilizado sozinho para decidir que uma criança ou adulto precisa tomar vermífugo.
Pode. Prurido ao redor do ânus, principalmente noturno, é característico da enterobíase, embora existam outras causas de coceira anal. É interessante notar que gudakaṇḍū, prurido anal, também aparece entre as manifestações dos purīṣaja kṛmis descritos no Mādhavanidāna.
Pode participar de uma abordagem complementar, principalmente quando existem alterações de agni, apetite, evacuação, estado nutricional e recuperação depois da doença.
As medidas dependem do parasita, mas saneamento, água segura, lavagem das mãos, higiene adequada dos alimentos e cuidados específicos com fontes de exposição são fundamentais.