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Rajayakshma é o mesmo que tuberculose?

O Ayurveda descreveu uma doença que possui um quadro marcado por tosse, febre, perda de apetite, emagrecimento e enfraquecimento progressivo. Muitos desses sinais lembram a tuberculose, mas Rajayakshma é um conceito mais amplo (e por isso, mais interessante).

Por Rodrigo Raposo

Tempo de leitura: 17 minutos

Quando pensamos em doença respiratória, é comum concentrarmos a atenção nos pulmões. Se existe tosse, catarro, falta de ar ou dor no peito, procuramos entender o que está acontecendo com o sistema respiratório. No capítulo 10 do Madhava Nidana, porém, a descrição de Rajayakshma vai aos poucos mostrando outra coisa: conforme a doença avança, a pessoa não apenas tosse. Ela perde o apetite, emagrece, perde força, apresenta febre, alterações digestivas e começa a sofrer aquilo que o Ayurveda chama de kshaya, uma redução progressiva dos tecidos do corpo. O problema respiratório passa a fazer parte de um processo maior de desgaste do organismo.

É por isso que Rajayakshma costuma ser comparado à tuberculose, mas essa comparação precisa ser feita com algum cuidado. A tuberculose pulmonar também pode produzir tosse persistente, febre, cansaço, perda de peso, falta de apetite e sangue no escarro. Durante muito tempo, inclusive, a tuberculose foi conhecida como “consunção”, justamente pela imagem de uma pessoa que vai sendo consumida pela doença. Hoje sabemos que ela é causada por bactérias do complexo Mycobacterium tuberculosis e transmitida principalmente pelo ar. A OMS considera tosse prolongada, fraqueza ou fadiga, perda de peso, febre e sudorese noturna alguns de seus sintomas mais comuns. Organização Mundial da Saúde – Tuberculose

Isso não quer dizer que Rajayakshma seja simplesmente o nome ayurvédico da tuberculose. O conceito é anterior à microbiologia e parece abranger um campo maior de doenças consumptivas, nas quais há perda progressiva de tecidos, força e vitalidade. Talvez seja mais proveitoso, então, não tentar encaixar perfeitamente uma classificação dentro da outra, mas observar onde as duas descrições se encontram.

Neste artigo, vamos ver:

– o que é Rajayakshma e por que esse quadro é frequentemente relacionado à tuberculose;
– por que não devemos considerar Rajayakshma e tuberculose como termos equivalentes;
– quais são as quatro principais causas de Rajayakshma descritas pelo Madhava Nidana;
– como o Ayurveda explica o processo de perda progressiva dos dhatus;
– por que sintomas como tosse, doenças respiratórias, aumento da temperatura corporal, perda de apetite, emagrecimento e presença de sangue aparecem juntos;
– o papel do agni, do tecido muscular e da força na evolução e no prognóstico da doença;
– o que a medicina moderna sabe sobre a relação entre tuberculose, inflamação, desnutrição e perda de massa muscular;
– quais sinais o Madhava Nidana considera indicativos de maior gravidade;
– e como podemos aproximar o conhecimento ayurvédico da medicina moderna sem transformar conceitos diferentes em equivalentes.

Por que Rajayakshma é chamado de “doença do rei”?

Existe uma história antiga por trás do nome Rajayakshma. Ela aparece em diferentes versões na literatura indiana e também foi incorporada à tradição médica. O Charaka Samhita (texrto mais antigo do Ayurveda, de aproximadamente 5 mil anos) inicia seu capítulo sobre Rajayakshma contando a história de Chandra, a Lua, antes de entrar propriamente nas causas e no tratamento da doença. (siva.sh)

Segundo a narrativa, Chandra havia se casado com as filhas de Daksha, tradicionalmente identificadas com os 27 nakshatras (constelações ou mansões lunares pelas quais a Lua transita). Entre todas elas, porém, Chandra tinha uma predileção por Rohini e passava muito mais tempo com ela. As demais esposas se sentiram negligenciadas e procuraram o pai. Daksha advertiu Chandra, mas ele continuou favorecendo Rohini. A partir daí, as versões da história apresentam algumas diferenças, mas convergem em um ponto: Chandra é atingido por uma maldição que faz com que seu corpo perca progressivamente sua força, seu brilho e sua plenitude. Em uma das tradições, Daksha o amaldiçoa com uma doença consumptiva; no Charaka Samhita, o próprio excesso de Chandra e a negligência com a preservação do corpo fazem com que ele comece a definhar. (Biblioteca da Sabedoria)

A imagem é bastante bonita quando lembramos que estamos falando da Lua. Chandra, antes pleno e luminoso, começa a diminuir. Seu corpo perde substância e seu brilho desaparece aos poucos. A narrativa acaba sendo relacionada ao próprio ciclo lunar: a Lua mingua até quase desaparecer e depois recupera gradualmente sua forma. Algumas versões contam que os deuses intercederam por Chandra diante de Daksha e que a maldição foi modificada, de modo que ele passaria parte do mês diminuindo e a outra parte recuperando aquilo que havia perdido. (Biblioteca da Sabedoria)

A “doença do rei” nos textos clássicos

O Charaka Samhita conta que Chandra, excessivamente apegado a Rohini e sem preservar o próprio corpo, começou a sofrer uma redução corporal. Mais adiante, explica que essa enfermidade passou a ser chamada Rajayakshma porque primeiro acometeu Chandramas, o rei das estrelas. (Caraka Samhita Online)

Outros textos chamam a condição também de Rogaraja – “rei das doenças”. O Ashtanga Sangraha explica que ela recebe esse nome por sua relação com muitas outras enfermidades e chama Rajayakshma também de shosha (definhamento). (Pocket Ayurveda)

Por isso, não é suficiente traduzir Rajayakshma simplesmente como “doença do rei”. O nome carrega pelo menos duas imagens tradicionais que acabam se encontrando: é a doença que atingiu um rei e é também apresentada como uma espécie de “rei das doenças”, pela quantidade de manifestações e pelo grau de comprometimento que pode produzir no organismo.

E existe algo no mito que combina muito bem com aquilo que o artigo descreverá clinicamente a seguir. Chandra não cai morto de repente. Ele vai diminuindo. Perde sua plenitude aos poucos. É uma imagem bastante próxima da ideia de definhamento: o corpo que antes conseguia se manter começa, progressivamente, a ser consumido.

Antes de falar da tosse, o texto fala de como a pessoa estava vivendo

A obstrução dos impulsos naturais, a perda ou esgotamento dos tecidos, os esforços que ultrapassam a capacidade do indivíduo e a alimentação irregular são apresentados como as quatro grandes condições relacionadas ao surgimento de yakshma.

Percebe que se insistirmos em dizer que Rajayakshma é o mesmo que tuberculose, esse verso fica confuso? Alimentar-se irregularmente ou fazer esforço demais não cria Mycobacterium tuberculosis. A tuberculose é uma doença infecciosa e isso não está em discussão.

O que o texto está observando é outra coisa: em que condições o organismo se encontra quando começa esse processo de desgaste. A preocupação não está apenas com aquilo que veio de fora, mas com a capacidade que o corpo ainda possui de sustentar a si mesmo.

Essa diferença ajuda a entender por que aparecem, entre as causas, fatores que hoje chamaríamos de estilo de vida. O raciocínio é que uma pessoa repetidamente submetida a situações que desgastam o organismo se torna mais vulnerável a um processo de perda.

Não precisamos transformar essa explicação em imunologia para que ela tenha valor. A medicina atual também reconhece que exposição ao bacilo e desenvolvimento de tuberculose ativa são coisas diferentes. Muitas pessoas infectadas nunca desenvolvem a doença, enquanto condições como desnutrição, diabetes e comprometimento imunológico aumentam esse risco. A linguagem é outra e os mecanismos são outros, mas existe aqui uma questão em comum: o estado da pessoa interfere na maneira como a doença se desenvolve.

O que acontece com o corpo?

O corpo deveria ser capaz de manter e renovar seus tecidos, mas em Rajayakshma esse processo começa a falhar. Em vez de construir, o corpo passa a perder tecido. Estamos falando de uma pessoa que vai emagrecendo, enfraquecendo e perdendo aquilo que deveria conseguir manter.

A tuberculose oferece uma ponte interessante para entendermos esse fenômeno. A perda de peso não é apenas uma consequência ocasional da doença. Desnutrição é frequente em pessoas com tuberculose pulmonar e pode se tornar parte de um ciclo: a doença reduz o apetite e modifica as necessidades metabólicas, enquanto o estado nutricional comprometido dificulta a recuperação. Uma revisão sistemática com 53 estudos e quase 49 mil pessoas encontrou prevalência agrupada de desnutrição próxima de 48% entre pacientes com tuberculose pulmonar, embora esse número varie bastante conforme população, país e critérios utilizados (Li et al., 2023). Estudo de Li et al. no PubMed

Há ainda um componente que não depende apenas de quanto a pessoa está comendo. Uma infecção crônica produz uma resposta inflamatória e modifica o metabolismo. Em pacientes com tuberculose pulmonar, já foram observadas alterações de apetite, composição corporal e hormônios relacionados à regulação da fome, com melhora de vários desses parâmetros ao longo do tratamento (Chang et al., 2013). Estudo de Chang et al. no PubMed

Aqui chama atenção a observação clínica: algumas doenças prolongadas fazem a pessoa entrar numa trajetória em que ela não está apenas doente, mas está perdendo corpo.

O quadro vai ficando maior do que uma doença respiratória

Antes mesmo do quadro estar plenamente estabelecido, aparecem as doenças respiratórias, dores pelo corpo, secreções, ressecamento do palato, vômitos, enfraquecimento de agni, tosse e alterações do sono. Depois, dor ou calor na região dos ombros e flancos, calor nas mãos e pés e um aumento progressivo da temperatura do corpo.

O texto clássico resume seis manifestações: aversão aos alimentos, aumento progressivo da temperatura do corpo, doenças respiratórias, tosse, aparecimento de sangue e alteração da voz.
É uma combinação que merece atenção porque se trata de um conjunto. Uma tosse isolada pode significar muitas coisas. Outra situação é uma pessoa que tosse há semanas, está emagrecendo, perdeu o apetite, tem febre, está ficando fraca e começa a eliminar sangue.

Isso continua sendo importante hoje. Nenhum desses sintomas isoladamente confirma tuberculose. Quando eles aparecem juntos, porém, existe motivo para investigação. Atualmente o diagnóstico pode envolver testes moleculares rápidos, exames microbiológicos e métodos de imagem, dependendo do caso. Diretrizes da OMS para diagnóstico da tuberculose

Também vale prestar atenção ao fato de que o capítulo não termina nos pulmões. Aparecem alterações digestivas, diarreia, perda de apetite, redução de tecido muscular e da força e, nos casos mais graves, sinais de deterioração de diferentes funções do organismo. Isso combina com a própria ideia de definhamento: a doença vai retirando recursos do corpo.
Para o Ayurveda, se alguém está perdendo tecidos, não basta pensar em oferecer alimento. É preciso considerar se essa pessoa consegue digerir, transformar e utilizar aquilo que recebe. O próprio texto considera mais favorável o paciente que ainda possui força, suporta as intervenções, apresenta agni preservado e não está excessivamente magro.

Não faz sentido traduzir agni como metabolismo, porém, uma pessoa com uma doença consumptiva precisa não apenas receber nutrientes, mas conseguir manter peso, massa muscular e capacidade funcional.

Tuberculose e nutrição

A relação entre tuberculose e nutrição mostra bem isso. Desnutrição não é apenas um achado estético ou um número baixo na balança. Ela está associada a desfechos clínicos. Uma revisão sistemática encontrou associação entre desnutrição e maior mortalidade e outros resultados desfavoráveis em pessoas com tuberculose multirresistente (Wagnew et al., 2023). Estudo de Wagnew et al. no PubMed

Ao mesmo tempo, não podemos concluir daí que alimentar melhor uma pessoa seja suficiente para tratar a tuberculose. Uma revisão Cochrane sobre suplementação nutricional durante o tratamento mostrou que a questão é mais complexa e que os suplementos não substituem o tratamento da infecção (Grobler et al., 2016). Revisão Cochrane no PubMed

Essa distinção é importante porque existe uma tentação, principalmente quando lemos Ayurveda com os olhos de hoje, de transformar toda doença em consequência de hábitos ou alimentação. Rajayakshma mostra justamente por que essa simplificação não funciona. A alimentação participa do estado do paciente, mas não explica sozinha tudo o que está acontecendo.

O prognóstico depende também de quanto corpo ainda existe para reagir

Entre os sinais considerados desfavoráveis aparecem perda de tecido muscular e força, emagrecimento progressivo, diarreia, dificuldade respiratória e aversão aos alimentos. Existe inclusive a descrição de alguém que come bastante e, apesar disso, continua emagrecendo.

Uma pessoa pode perder peso simplesmente porque está comendo menos. Mas alguém que continua emagrecendo apesar de uma ingestão aparentemente adequada merece uma investigação mais cuidadosa. Pode haver infecção crônica, alteração metabólica, má absorção, doença endócrina, câncer ou várias outras causas.

O texto descreve aquele em quem ainda vale a pena investir no tratamento:
“É o indivíduo que ainda possui força, suporta as intervenções, mantém agni e não está excessivamente magro.”

O diagnóstico pode ser o mesmo, mas duas pessoas não chegam à doença com a mesma reserva. Uma está emagrecida, sem apetite, perdeu massa muscular e mal consegue realizar suas atividades. Outra ainda mantém alimentação, força e boa parte da capacidade funcional. O nome da doença não conta toda a história.

Hoje temos outras maneiras de medir isso. Avaliamos peso, IMC, composição corporal, força, exames laboratoriais, extensão da doença, presença de comorbidades e uma série de outros fatores. Estudos modernos sobre tuberculose confirmam que o estado nutricional tem relação com o prognóstico. Em pacientes com tuberculose resistente à rifampicina, por exemplo, baixo IMC no início do tratamento foi associado a maior frequência de desfechos desfavoráveis e mortalidade (Ter Beek et al., 2022).

Não significa que força seja IMC ou que tecido muscular seja simplesmente massa muscular. Seria empobrecer o Ayurveda fazer essa tradução. Mas o princípio que está por trás da observação é fácil de reconhecer: quando a pessoa perde tecido e força, sua situação clínica muda.
Por isso o texto clássico os ensina a não olhar apenas para a doença.

A importância do cuidado integrativo

Se estivermos falando de tuberculose, precisamos saber que existe uma bactéria, precisamos diagnosticar corretamente e precisamos tratá-la. Tuberculose tem tratamento e pode ser curada, mas exige antibióticos específicos e acompanhamento adequado. Nenhuma erva, dieta, rasāyana ou procedimento ayurvédico deve substituir esse tratamento. Diretrizes da OMS para tratamento da tuberculose

Ao mesmo tempo, tratar a bactéria não torna irrelevante perguntar como está a pessoa. Ela está conseguindo comer? Continua perdendo peso? Quanto de massa muscular perdeu? Está conseguindo dormir? Como está sua força? Como está tolerando o tratamento? Está conseguindo recuperar aquilo que perdeu?

É nesse ponto que a leitura do Ayurveda pode acrescentar alguma coisa sem precisar competir com a medicina moderna.

O Madhava Nidana não conhecia Mycobacterium tuberculosis. Não tinha testes moleculares, radiografia, cultura de escarro ou antibióticos. Seria absurdo abrir mão de tudo isso para voltar a uma medicina de mais de mil anos atrás. Mas também seria uma leitura pobre do texto achar que, porque ele não conhecia a bactéria, não tinha nada importante a observar.

Rajayakshma é, em grande medida, uma descrição do que acontece quando uma doença deixa de afetar apenas uma parte do corpo e começa a consumir a pessoa. A tosse importa, a febre importa, o sangue importa. Mas o texto também olha para aquilo que está desaparecendo junto com a doença: apetite, músculo, força, agni e a capacidade de sustentar os próprios tecidos.

Perguntas frequentes

1 – Rajayakshma é a mesma coisa que tuberculose?

Não exatamente. Rajayakshma apresenta características que permitem uma aproximação com a tuberculose, especialmente quando aparecem tosse persistente, febre, emagrecimento, perda de força, falta de apetite e sangue na expectoração. Mas o conceito ayurvédico é mais amplo e inclui diferentes formas de definhamento e perda progressiva de tecido.

2 – Qual é a diferença entre kshaya e shosha?

Os conceitos estão relacionados, mas não são idênticos. Kshaya enfatiza a diminuição ou perda: um tecido, por exemplo, pode sofrer kshaya. Shosha enfatiza mais o estado de definhamento que se estabelece quando essa perda se torna importante.

3 – Quais são as causas de Rajayakshma segundo o Madhava Nidana?

São quatro as causas principais: supressão dos impulsos naturais, perda de tecido, esforços que ultrapassam a capacidade do indivíduo e alimentação irregular. Essas causas pertencem ao modelo fisiopatológico do Ayurveda e não devem ser confundidas com a causa microbiológica da tuberculose.

4 – Se a tuberculose é causada por uma bactéria, qual é o sentido de falar dessas causas ayurvédicas?

Porque os dois sistemas estão respondendo a perguntas diferentes. A medicina moderna identifica o agente infeccioso, sua transmissão e os mecanismos da doença. O Ayurveda está interessado também nas condições do organismo que precedem e acompanham seu adoecimento.

5 – O que agni tem a ver com uma doença respiratória?

No Ayurveda, agni não diz respeito apenas a sentir ou não desconforto depois de comer. Ele participa da capacidade de transformar aquilo que é ingerido e, consequentemente, de sustentar os dhātus. Isso se torna especialmente relevante em uma doença caracterizada por perda de tecidos.

6 – Ayurveda pode tratar tuberculose sem antibióticos?

Não. Quando existe tuberculose ativa, o tratamento antimicrobiano adequado é indispensável. A doença é causada pelo Mycobacterium tuberculosis e pode ser transmitida para outras pessoas, além de evoluir com complicações graves quando não tratada. O Ayurveda pode participar de uma abordagem complementar, desde que isso seja feito em conjunto com o acompanhamento médico e sem substituir ou interromper o tratamento da tuberculose.

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