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Tá, mas e a prakriti?

Se a primeira coisa que uma pessoa escuta falar ao entrar em contato com o ayurveda é doá¹£a, a segunda, facilmente é prakrti – ou prakriti, como os desavisados as vezes escrevem. Ao conhecer as características de vata, pitta e kapha e fazer um teste do dosha, “para descobrir sua prakrti”, nós sentimos como se tivéssemos desvendado todo o conhecimento do Ayurveda. Você começa a se entender como nunca antes e tudo passa a fazer sentido. Mas, será que é simples assim?

prakriti ou prakrti é parte essencial do ayurveda

A prakriti

Um dos possíveis significados de prakrti é natureza e aqui nesse contexto é entendido como a combinação única dos dosha em cada indivíduo, que ocorre no momento exato da junção de shukra (sêmem) e artava (óvulo) dos pais, algo como o seu DNA.

A combinação específica dos 3 dosha em você é o que te faz único. Observe que eu disse três, porque, sim, todos temos os três dosha em nós e se você não tivesse, simplesmente não existiria e é por isso que quando alguém diz que é vata, ou que é pitta, o que supomos que ela quer dizer é que tem em sua prakrti a predominância deste dosha porque afinal de contas, ter, todos temos.

A importância de saber a sua prakrti é se entender melhor e saber para onde direcionar seus esforços com o intuito de trazer sua saúde de volta ao seu estado de natureza.

Prakrti ou prakriti?

Essa dúvida é normal e acontece com a maior parte das pessoas que se inicia na Ayurveda. Seguindo o sânscrito, grafia original dos termos, o correto é utilizar a forma prakrti, com pronúncia “prah-krit”. A confusão com “prakriti” é normal, uma vez que essa é uma versão “abrasileirada” de grafia do termo, mas que não respeita as origens.

Ela é como o veneno no animal peçonhento

Cada um dos três dosha tem características diversas que se manifestam em maior ou menor quantidade em nós conforme nossa prakrti e já até entendemos porquê as pessoas dizem serem um ou outro dosha. Mas imagine que embora você tenha todos eles, no momento de sua criação, pitta se manifestou em maior quantidade, faz sentido pensar que as características dele estarão mais presentes no seu corpo e temperamento, concorda?

Se você conhece as qualidades do dosha, nesse momento, aposto que já está repassando mentalmente seus próprios atributos tentando identificar qual existe em maior quantidade em você, e talvez esteja começando também a justificar alguns problemas que você possa ter com o argumento de que “essa é a sua natureza”.

Acontece que segundo o que Vagbhata diz no início do primeiro volume do Ashtanga Hrdayam (AH. Su. 1/9-10), aquela combinação específica dos dosha que formam a sua prakrti, estão em você como o veneno está em um animal peçonhento, ou seja, não lhe causam mal. Apesar de uma das definições clássicas de dosha ser “aquilo que gera desequilíbrio”, mesmo que você tenha bastante vata na sua composição original, por exemplo, isso não te causa problema, pois faz parte da sua constituição, da sua natureza.

Os tipos de prakriti.

Nesse mesmo sloka (verso) ele diz que existem 7 combinações possíveis entre os dosha que formam uma prakrti. São elas:

  • Com predominância de 2 dosha:
  1. vata e pitta;
  2. vata e kapha;
  3. pitta e kapha;
  • Com predominância de 1 dosha:
  1. vata;
  2. pitta;
  3. kapha;

7. Com os 3 em iguais proporções entre si.

Sobre elas, Vagbhata diz:

Que as três primeiras possibilidades de prakrti são as piores, que apenas vata predominante é de baixa qualidade, pitta predominante é de qualidade moderada e kapha predominante é de boa qualidade, enquanto que a sétima, também chamada de samadhatu é o melhor dos mundos.

E se minha prakriti é ruim?

Neste momento você deve estar pensando, “mas, poxa, o Vagbhata tinha dito que nenhuma prakrti faz mal à pessoa e agora diz que tem 3 que são piores?”. Pois é, vamos entender isso melhor. Vamos supor que você tenha uma constituição com predominância de vata e de pitta, que é considerada uma das piores. Bem, nesse caso essa é a sua natureza e isso vai ditar muitas características suas. Ter muito vata e muito pitta fazem parte de você e não te fazem mal, porém, esses são os dosha que desequilibram mais fácil, de modo que você, naturalmente, tem mais chances de ficar doente e de estar longe da sua prakrti.

Portanto, a função dos tratamentos que aplicamos quando uma pessoa fica doente é levá-la de volta à sua prakrti, à sua constituição original. É isso que fazemos quando dizemos que vamos “re-equilibrar os dosha”. Vamos fazê-los voltar àquela quantidade que em você, não faz mal, que te é natural.

Manter nossa prakrti é tarefa das mais difíceis. Lembre-se que os doṣa sempre tendem ao desequilíbrio e que o nosso entorno, a natureza e tudo o que fazemos, desde comer, vestir, dormir, até sentir e pensar, podem desequilibra-los. Por isso, nossas ações devem estar sempre alinhadas com o objetivo de retornarmos à prakrti. Tendo em mente, porém, que não existe equilíbrio estático quando se trata de dosha e saúde e sim, um equilíbrio dinâmico e que você deve estar sempre atento a tudo o que interage de alguma forma com o seu corpo e pode afetar a sua saúde. Por isso é importante fazer boas escolhas frequentemente.

Mas, e o teste do dosha?

À essa altura você já deve ter percebido o que esses testes tentam mostrar, certo? A sua prakrti, claro. Observe que a maioria deles pedem para você escolher a opção que melhor representa a maior parte da sua vida.

Mas, em quantos momentos da vida será que nós estivemos de fato com a manifestação de nossa prakrti? E se tivermos sempre com algum nível de desequilíbrio, será que esses testes conseguem mostrar quem realmente somos?

Talvez você discorde de mim, mas eu acho que eles têm grande chance de serem falhos, apesar de divertidos. Não significa que eles não possam te dar uma noção ou te levar um passinho mais perto de se conhecer, mas é importante usá-los com cautela, pois eles podem te dar como resultado a sua vikrti.

E da vikrti, você já ouviu falar?

Se não ouviu, tudo bem, ela é pouco falada mesmo. Mas, não deveria ser, afinal entender a vikrti é de extrema importância, tanto quanto entender a prakrti.

A vikrti, em poucas palavras, é a combinação atual dos seus dosha, como eles se encontram nesse momento, considerando seus possíveis desequilíbrios.

Talvez, seja mais útil entender como ela se aplica a você do que a prakrti em si. Afinal, precisamos saber como estamos, quais desequilíbrios temos, o estado atual de cada dosha para então tratá-los e levá-los de volta a nossa prakrti, concorda? Imagine que bom seria se buscássemos nossa vikrti e não nossa prakrti quando fazemos um teste do dosha!

Não jogue fora seu teste do dosha.

Com todas essas informações acredito que você já seja capaz de opinar sobre a validade dos testes. Mas, se quer saber, apesar de tudo, eu acho bem massa fazê-los, nem que seja para você parar por um instante e refletir sobre o resultado. Ele reflete quem você sente que é, te descreve de forma adequada, você sente que ele acertou? Independente das respostas para essas perguntas, o autoconhecimento que elas te possibilitam é valioso.

Só não pare por aí. Não aceite soluções simplistas como tabelas de alimentos para o seu dosha, pois elas podem não ser adequadas para a sua vikrti, faz sentido? Ao invés disso, exercite seu autoconhecimento, se observe diariamente e entenda como os seus dosha estão se manifestando naquele dia, naquele momento, naquela fase da sua vida e aí sim, encontre as dicas do Ayurveda que te façam bem agora!

Sabrina Natalini – Cientista social e monitora do módulo de Sharira Kriya e Rachana no Vidyalaya.

8 comentários em “Tá, mas e a prakriti?”

  1. Norma Sueli Marques

    Nada como informação de qualidade. Obrigada pela explicação. Não sei de foi bom ou ruim ler isto pois estar na fase Vata da vida e ler que vata pita seria algo não desejável pro que você descreveu dá um desconforto. A solução é então ir em busca do equilíbrio da vikrti e se entregar a grande Ordem.
    Om🙏🏼🙌🏼🕉️💚✨✨✨✨✨

    1. É isso mesmo Norma, a busca pelo equilíbrio deve ser constante.
      Mas acalme seu coração, com auto conhecimento e essa entrega que você mencionou, tudo fica bem 🙂

  2. Gabrielly Alonso Alves

    Achei o post muito muito bom! Parabéns Sabrina pela explicação direta e simplificada.

  3. Muito legal entender essa diferença entre vikrti e prakrti.
    Eu tbm não sabia dessa combinação pitta e vatta ser propensa ao desequilíbrio.

    1. Pois é, Muri. Mas espero que tenha ficado claro que isso é apenas uma tendência.
      Com auto observação e rotinas adequadas você será tão saudável quanto qualquer outra pessoa 🙂

  4. Samuel branco monteiro

    Ótimas informações, até hoje não tinha entendido esses conceitos de vikrti e prakrti, agora faz sentido.

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