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Por Rodrigo Raposo
Em nossa sociedade de hoje (e de sempre), a maioria das pessoas não foi ensinada a aprender com os erros, mas sim a sentir vergonha deles. Neste artigo eu mostro o impacto dessa cultura na nossa vida atual e a importância do erro em nosso crescimento.
Errar é um problema. Quando erramos uma questão na prova, a professora marca um X com caneta vermelha para chamar nossa atenção (e tem aquelas que ainda desenham uma carinha triste). Em algumas bancas de concurso público, um erro anula duas questões corretas (ou seja, errar pesa mais do que acertar).
Educamos nossos filhos com castigo sempre que eles erram. Alunas na escola sentem vergonha de tirar dúvida com os professores em sala de aula e levam a dúvida para casa, por medo da humilhação de mostrar que errou, ou que não sabe algo.
Times de futebol são massacrados pela crítica esportiva e seus torcedores quando jogam mal uma partida, mesmo que estejam indo bem em suas competições. Treinadores multicampeões são demitidos por derrotas sem importância ao longo da temporada (ignorando o histórico vitorioso do profissional).
Pessoas são demitidas de empregos por conta de falhas cometidas…. casais se separam devido a erros individuais… enfim, a lista de exemplos é enorme e eu poderia escrever inúmeras páginas falando sobre como condenamos o erro.
O significado do erro
Na verdade, a palavra “errar” carrega dois sentidos muito diferentes – mas a gente cresceu aprendendo só um deles. Quando alguém diz “você errou”, o que vem à cabeça imediatamente é: você falhou, fez algo errado, decepcionou alguém. Essa frase traz consigo um peso negativo muito grande, a ponto de a maioria das pessoas ter o impulso de se defender, quando são acusadas de terem errado. E muitas desavenças surgem a partir daí.
Mas na maioria das vezes, o erro não é o verdadeiro problema, mas sim a maneira como fomos ensinados a olhar para ele.
Não fomos educados ao conceito de que errar faz parte do crescimento. Aprendemos que errar gera punição, vergonha e rejeição. E isso molda a forma como vivemos hoje em dia.
O medo de errar e o dano psicológico
Existe uma razão pela qual tantas pessoas travam diante de algo novo, desconhecido, procrastinam decisões importantes, perdem noites de sono acreditando terem tomado decisões erradas ou de tomar a decisão errada. Muitas pessoas desistem de um projeto antes mesmo de tentar, com medo de errar.
A maioria de nós foi criada dentro de um sistema que transforma o erro em fracasso moral. Desde pequena, a criança é educada com a ideia de que existe uma resposta certa e uma errada. Que acertar gera recompensa (elogios, brindes, nota boa e aprovação), enquanto errar gera desconforto, repreensão, decepção e punição. Quando esse padrão se repete por anos, o cérebro começa a associar erro com ameaça, e não como aprendizado.
E isso se reflete na sociedade atual, quando eu vejo na minha clínica muitas pacientes com medo de começar um estilo de vida novo por medo de como vai ser, medo de errar no caminho. Muitos casais desistem do sonho de serem pais por medo de errar com seus filhos.
O sistema não pune apenas o erro, mas também a tentativa
Em muitos casos, principalmente em grandes empresas, com projetos que geram custos altos, o erro pode custar caro. E tentar passa a parecer perigoso, diante disso o comportamento mais seguro parece ser não tentar. E é aí que muita gente começa a paralisar sem perceber.
Você não deixa de tentar porque é preguiçosa, incapaz ou desinteressada. Muitas vezes, você deixa de tentar porque aprendeu que o preço emocional do fracassado pode ser alto demais.
E isso vai muito além da escola. Isso molda a forma como você se enxerga como ser humano.
“Eu não levo jeito pra isso” – ou você só foi medida pela régua errada?
Quantas pessoas cresceram acreditando que eram ruins em aprender uma determinada coisa? “Eu nunca vou aprender uma língua nova”, “eu não sei falar em público” são crenças limitantes muito comuns.
Mas, e se a pessoa mudasse a forma de enxergar a própria história e começasse a se perguntar: “quem decidiu quais habilidades realmente têm valor?” Talvez hoje o seu trabalho exija boa comunicação e desenvoltura para falar em público, mas isso não significa que você não tenha potencial para desenvolver essas capacidades. Talvez essas habilidades pudessem ter sido cultivadas lá atrás, quando você quis fazer teatro, mas acabou sendo desencorajada pelos seus pais, que acreditavam que aquilo “não levaria a lugar nenhum”.
Existe um sistema que valoriza certos tipos de inteligência, habilidades, enquanto ignora completamente outros. Se o seu talento era artístico, criativo, intuitivo, manual emocional, em que momento isso foi realmente incentivado?
Em alguns casos, a pessoa foi – pouco a pouco – convencida de que aquilo “não te levaria a lugar nenhum”.
O medo de errar nasce cedo – e se instala fundo
Quando uma criança aprende que errar é falhar, ela começa a (desde cedo) evitar o erro.
E evitar o erro, na prática, significa evitar algo novo. O novo gera incertezas, e toda incerteza carrega a possibilidade de errar.
Então nasce aí algo muito mais limitante do que o erro: a paralisia.
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Muitos adultos hoje não estão travados porque não tem potencial, mas sim porque aprendeu, desde cedo, que falhar dói demais.
Existe um detalhe que a gente ignora completamente
Você só aprendeu tudo o que sabe hoje errando, em algum momento no passado. Você não nasceu andando. Aprendeu a andar caindo, repetidamente. E, em nenhum momento, alguém olhou para um bebê caindo e disse “ele já caiu demais, esse bebê nunca vai aprender a andar.” Pelo contrário; cada queda era esperada, pois é natural, necessária. E o curioso é que ninguém trata esse processo como fracasso.
O mesmo ocorre quando você aprendeu a andar de bicicleta. Quantos tombos foram necessários para você aprender a pedalar? E você foi chamada de fracassada porque caia da bike tentando aprender?
Então por que, quando cresce, isso muda?
O erro não é um desvio do caminho. Ele é o caminho
Essa é uma daquelas ideias que parecem bonitas e inspiradoras quando lidas em um livro ou compartilhadas em uma frase de efeito nas redes sociais, mas que raramente são aceitas quando chegam na vida real. Errar dói, se frustrar dói, perceber que você ainda não consegue performar algo que gostaria muito de dominar também dói. Existe um desconforto profundo em não dar conta de primeira, principalmente quando você se dedicou, criou expectativa e imaginou que estaria mais preparada do que realmente estava.
Mas existe uma diferença enorme entre sentir a dor natural do processo e transformar essa dor em prova de incapacidade. O problema não está necessariamente no erro em si, mas na interpretação que fazemos dele.
O medo de errar no cotidiano
Muita gente olha para uma falha momentânea e conclui que aquilo revela algum defeito definitivo sobre quem ela é, como se errar significasse “não sirvo para aquilo”, “não tenho esse talento”. Só que essa conclusão ignora um detalhe essencial: toda habilidade que hoje parece natural em alguém passou, inevitavelmente, por uma fase desajeitada, frustrante, repleta de erros.
Lembre-se que toda pessoa que hoje você admira por fazer algo com excelência já foi iniciante. No jiu-jitsu, judô, karatê, chegar na faixa preta não é o fim da jornada, mas sim apenas o começo dela. Significa que agora ela está pronta para trilhar um caminho de sucesso. Mas até chegar na faixa preta, existem muitas outras faixas, erros, frustrações etc.
Normalmente só conhecemos o resultado final do processo, mas nunca vemos os bastidores. Não vemos as tentativas fracassadas, as derrotas, as dúvidas. E é aí que muita gente se engana: acreditar que evolução acontece apesar dos erros, quando na verdade elas acontecem graças a eles. Sem erros não existem ajustes. E sem ajustes não existe o refinamento. E sem refinamento não existe crescimento real. O erro não é uma interrupção do caminho, mas sim o mecanismo através do qual o caminho acontece.
A maior falha não é errar
Existe uma diferença muito importante entre fracassar em algo e jamais ter tido coragem de tentar. Quando você tenta, existe a possibilidade de dar certo. Claro que também existe a possibilidade de dar errado, de não funcionar como você imaginava, de precisar recomeçar, ajustar, aprender no meio do caminho. Mas, ainda assim, existe movimento. Existe experiência. Existe crescimento. Já quando você desiste antes mesmo de começar, o resultado fica automaticamente definido. Não existe descoberta, não existe transformação, não existe sequer a chance de algo inesperado acontecer.
E talvez essa seja uma das armadilhas do medo: ele faz parecer que evitar riscos é uma forma de proteção, quando muitas vezes isso apenas prolonga a sensação de arrependimento. Porque a dor de errar costuma ser passageira, mas a dúvida sobre aquilo que poderia ter acontecido pode acompanhar uma pessoa por muitos anos. O “e se?” tem um peso emocional enorme justamente porque nunca encontra resposta.
O que os estudos falam sobre o erro
Isso aparece de forma muito clara em um estudo bastante conhecido chamado The Top Five Regrets of the Dying, que reuniu relatos de pessoas no fim da vida sobre seus maiores arrependimentos. E existe algo profundamente humano nas respostas encontradas ali: a maioria das pessoas não se arrepende principalmente dos erros que cometeu. Elas se arrependem das experiências que não viveram, das decisões que não tiveram coragem de tomar, dos sentimentos que esconderam, das mudanças que adiaram indefinidamente por medo de falhar ou decepcionar alguém.
Muita gente chega ao fim da vida carregando não o peso do fracasso, mas o peso da omissão. O peso do amor que nunca foi declarado, da carreira que nunca foi tentada, da viagem que sempre ficou para depois, da versão de si mesma que jamais teve espaço para existir porque o medo parecia grande demais. E talvez essa seja uma das verdades mais difíceis de aceitar: o medo de errar raramente protege alguém do sofrimento. Na maioria das vezes, ele apenas troca um sofrimento curto e transformador por um arrependimento silencioso e duradouro.
Existe um outro significado de “errar” que quase ninguém se toca
Curiosamente, a palavra “errar” nem sempre esteve associada apenas à ideia de falha ou equívoco. Existe um outro significado, muito mais antigo e profundamente interessante, que quase ninguém lembra hoje: errar também significa vagar, caminhar, percorrer caminhos desconhecidos. A errante é aquela que se move pelo mundo, que sai do lugar habitual, que explora territórios novos sem ter absoluta certeza do que vai encontrar pela frente.
E perceber isso muda a forma como enxergamos o erro.
Porque, de repente, errar deixa de significar apenas “falhar” e passa a significar movimento. Passa a representar a disposição de sair do conhecido, de experimentar, de se expor ao novo, mesmo sem garantias. A errante não é alguém imóvel – é justamente o contrário. É alguém que aceita a insegurança natural do caminho porque entende que certas descobertas só acontecem durante a travessia.
Uma errante conhece culturas diferentes, aprende línguas que antes pareciam estranhas, vive experiências que jamais teria vivido se tivesse permanecido apenas no território seguro do que já conhece. Ela se transforma justamente porque se permite sair da própria bolha. E talvez uma das verdades mais difíceis de aceitar seja essa: a zona de conforto realmente é confortável, mas também pode se tornar uma prisão.
Porque tudo que permanece excessivamente seguro também permanece limitado. Quando você evita qualquer possibilidade de erro, acaba evitando também experiências capazes de expandir sua visão de mundo, sua maturidade e até sua identidade. A segurança absoluta pode até proteger do desconforto imediato, mas muitas vezes cobra um preço alto demais: a perda da possibilidade de descobrir quem você poderia se tornar se tivesse coragem de explorar caminhos que ainda não conhece.
Conclusão: o que está te travando não é falta de capacidade
Talvez o que está te limitando hoje seja o medo de fazer errado. E esse medo, muitas vezes, nem nasceu em você. Ele foi aprendido. E assim como tudo que é aprendido, pode ser desaprendido.
Talvez você não precise acertar mais. Talvez você precise apenas parar de acreditar que errar faz de você menos capaz. Afinal, se até mesmo Sócrates sabe que ele não sabe de nada, porque eu deveria achar que preciso saber tudo?
Perguntas Frequentes
Sim. Na prática, quase toda habilidade humana é desenvolvida através de tentativa, ajuste e repetição. O erro não é o oposto do aprendizado – ele é parte do processo que permite o aprendizado acontecer. Sem experimentar, falhar e corrigir, dificilmente existe evolução real.
Porque a maioria das pessoas foi ensinada, desde cedo, a associar erro com punição, vergonha ou fracasso.
Sim e ela é enorme. Errar significa que algo não saiu como esperado em uma tentativa específica. Fracassar, muitas vezes, é uma interpretação emocional construída sobre esse erro.
O medo dificilmente desaparece completamente. O que muda é a relação que você constrói com ele. Quando você entende que errar não define sua capacidade nem seu valor, o erro deixa de parecer uma ameaça absoluta e passa a ser visto como parte natural do caminho.
A palavra “errar” também possui o sentido de vagar, caminhar e explorar. O errante é aquele que se move pelo desconhecido, experimenta o novo e sai do lugar comum.
Talvez a forma mais saudável de errar seja entendendo que o erro não precisa ser transformado em identidade. O erro é uma experiência não uma definição sobre quem você é.
Este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não substitui avaliação médica, nutricional ou ayurvédica individualizada. Nele não fazemos diagnóstico nem indicamos tratamentos para casos específicos. Se você apresenta sintomas persistentes, usa medicamentos, está grávida, amamentando ou tem condição crônica, procure acompanhamento profissional antes de mudanças na dieta, sono, exercícios ou uso de suplementos/fitoterápicos.
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