por Marilia Mayorga e Vd. Matheus Macêdo
A causa das doenças no Ayurveda não é controversa.
Quando pensamos em por que adoecemos, geralmente imaginamos um processo multifatorial.
Geralmente, associamos a origem das doenças à alimentação, à genética, ao estresse, ao estilo de vida, ao ambiente… e por aí vai.
Tudo isso importa.
Mas, para o Ayurveda, todas as doenças, independentemente de quais sejam, têm uma causa fundamental: Prajñaparadha.
Ao longo deste artigo, você vai entender:
– o que significa Prajñaparadha;
– o que é doença para o Ayurveda;
– como a confusão entre aquilo que somos e aquilo que chamamos de “meu” participa do adoecimento;
– quais são as três terapias da mente no Ayurveda;
– e como observar esse conceito na vida prática.
Assista ao vídeo que inspirou este artigo
Você precisa entender isso de uma vez por todas!
O que é doença para o Ayurveda?
Olhando pela perspectiva da medicina moderna, o conceito de doença pode variar conforme a especialidade.
Por exemplo, um médico poderia dizer que uma pessoa está doente quando apresenta sintomas de disfunção fisiológica detectáveis e quantificáveis clinicamente ou por meio de exames.
Já um fisioterapeuta poderia dizer que uma pessoa está doente quando não consegue tocar os pés ao se abaixar ou quando não tem condicionamento físico para subir um lance de escadas.
Essas são definições compreensíveis, mas restritas a determinados aspectos da experiência humana.
Para o Ayurveda, se existe sofrimento de qualquer natureza, a pessoa está doente.
Se uma pessoa não se sente bem, não está feliz, então, de acordo com a visão ayurvédica, ela está doente.
O Ayurveda é a ciência que busca entender a vida e eliminar o sofrimento.
A palavra Ayurveda nasce da união entre ayush, vida, e veda, conhecimento. Ayurveda, portanto, é o conhecimento sobre a vida.
E, para o Ayurveda, a vida é composta pela união de quatro elementos fundamentais:
– sharira, o corpo físico;
– indriya, os órgãos dos sentidos;
– sattva, a capacidade cognitiva;
– atma, aquilo que você é.
Se existe desequilíbrio em algum desses elementos, existe sofrimento. E, consequentemente, existe doença.
A causa de todas as doenças no Ayurveda
No Charaka Samhita, um dos grandes textos clássicos do Ayurveda, essa causa fundamental recebe o nome de Prajñaparadha.
Ou seja, a doença surge quando prajna, que é o seu conhecimento, a sua capacidade cognitiva e a sua inteligência, está em aparadha, isto é, desviada, bloqueada ou mal direcionada.
Então, segundo o Ayurveda, a sua compreensão da realidade impacta positiva ou negativamente a sua saúde em todos os seus aspectos.
Essa visão não está tão distante da forma como a própria Organização Mundial da Saúde ampliou o conceito de saúde.
Em 1946, a OMS definiu saúde como um estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas como a ausência de doença ou enfermidade.
O Ayurveda tem um olhar ainda mais profundo.
Quando você tem uma compreensão equivocada da realidade, tende a fazer uma série de escolhas ruins para sua vida.
Você pode fazer aquilo que aumenta seu sofrimento.
Ou pode deixar de fazer aquilo que traria mais bem-estar, mais felicidade e mais saúde.
Nesse sentido, Prajñaparadha não é apenas uma ideia filosófica.
Ou seja, é algo que aparece na forma como comemos, dormimos, nos relacionamos, trabalhamos, descansamos, tomamos decisões e interpretamos a nós mesmos.
As três terapias da mente para o Ayurveda
Outro texto clássico, o Ashtanga Hrdayam, descreve três ferramentas principais para trazer a saúde da pessoa de volta ao equilíbrio.
Elas são:
Dhi, discernimento;
Dhairya, coragem;
Atmadivjnana, autoconhecimento.
Dhi, em resumo, é a capacidade de diferenciar o que é bom do que é ruim.
Quando não estamos aptos a fazer essa diferenciação, o Dhi está prejudicado.
A falta de discernimento é um problema porque, quando não percebemos que certos alimentos nos fazem mal, por exemplo, continuamos consumindo esses alimentos.
O mesmo pode acontecer em outras áreas da vida.
Podemos permanecer em relacionamentos, ambientes, hábitos e escolhas que nos adoecem, mesmo quando alguma parte de nós já percebe que aquilo não faz bem.
O segundo tipo de tratamento é Dhairya, traduzido como coragem.
Dhairya se relaciona à capacidade de olhar para aquilo que não faz mais sentido e cortar isso da vida.
Isso exige coragem porque, muitas vezes, mesmo sabendo que algo nos faz mal, é difícil eliminar aquilo completamente.
Além disso, Dhairya também é a força de estar diante do maior desafio da sua vida e dizer: “vamos nessa”.
É a coragem de executar aquilo que você sabe que precisa ser feito, mesmo que seja necessário atravessar desconfortos ou enfrentar um processo desagradável.
A terceira terapia da mente é chamada de Atmadivjnana.
Ela diz respeito ao autoconhecimento sobre os quatro elementos fundamentais da vida: o corpo, os órgãos dos sentidos, a mente e quem você realmente é, Atma.
Quando essas três forças trabalham juntas, a mente ganha mais estabilidade e coerência interna.
Quando elas enfraquecem, surgem confusão, medo, paralisia, culpa e sofrimento emocional.
A confusão que promove doenças no Ayurveda
Um dos exemplos mais importantes de Prajñaparadha é a confusão entre aquilo que somos e aquilo que chamamos de nosso.
O Charaka Samhita também aponta para a importância de discernir o que é eterno e o que é passageiro.
Como estudantes da própria vida, precisamos buscar entender, o tempo inteiro, o que faz sentido e o que não faz.
Isso exige exercitar o discernimento, Dhi.
Exige coragem, firmeza e determinação para escolher um caminho em direção ao que faz sentido, fortalecendo Dhairya.
E exige separar aquilo que você é daquilo que você não é, cultivando Atmadivjnana.
Nós dizemos: meu corpo, minha mente, minha história, meu trabalho, meu relacionamento, minha opinião.
Então, aquilo que você chama de “meu” ou “minha” não pode ser você.
E isso não é apenas uma questão semântica.
Se algo é “meu”, existe alguém que percebe aquilo como “meu”.
O problema começa quando nos confundimos com aquilo que chamamos de meu.
Quando nos confundimos com o corpo, com a mente, com os papéis sociais e com as experiências, passamos a sofrer como se cada mudança nessas dimensões fosse uma ameaça àquilo que somos.
E, para o Ayurveda, onde há sofrimento, há doença.
Como lidar com isso?
O ponto não é virar niilista e acreditar que a vida não tem um sentido inerente.
Entender que aquilo que você vê não é você não significa negar os vínculos, abandonar responsabilidades ou achar que não precisa cuidar de nada.
Ao contrário, significa perceber que nós quase nunca olhamos para a realidade de forma neutra.
Cada pessoa olha para a vida a partir de lentes próprias.
Essas lentes são formadas pela história pessoal, pela cultura, pela educação, pelo ambiente, pelas experiências familiares, pelas relações, pelas dores e pelos desejos.
Na psicologia moderna, falamos de crenças centrais, que são estruturas profundas de pensamento sobre si mesmo, sobre os outros e sobre o mundo.
Na tradição védica, podemos falar dos véus da ignorância.
É como olhar para a vida com óculos embaçados e achar que o mundo inteiro está fora de foco.
Muitas vezes, não percebemos que o problema não é a realidade em si, mas a lente pela qual estamos olhando.
É aí que está Prajñaparadha.
E o tratamento começa quando a gente começa a limpar essas lentes – ou remover esses véus -, calibrando a percepção.
Para o Ayurveda, toda prática de cuidado é um processo de voltar a enxergar com mais clareza aquilo que já estava ali.
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Perguntas Frequentes
Para o Ayurveda, a causa fundamental das doenças é Prajñaparadha, uma falha na compreensão da realidade.
Prajñaparadha é um termo sânscrito formado por prajna, que indica inteligência, conhecimento ou capacidade cognitiva, e aparadha, que indica erro, desvio ou transgressão.
Não exatamente. A visão ayurvédica entende a vida como a união entre corpo, órgãos dos sentidos, mente e atma. E se há desequilíbrio e quaisquer dessas instâncias, há doença.
Para o Ayurveda, doença não é apenas aquilo que aparece em exames ou sintomas físicos. Se existe sofrimento de qualquer natureza, existe algum nível de desequilíbrio.
O Ayurveda propõe práticas de cuidado. Ao fortalecer Dhi, Dhairya e Atmadivjnana, a pessoa começa a enxergar com mais clareza e cria condições para uma vida com menos sofrimento.
Este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não substitui avaliação médica, nutricional ou ayurvédica individualizada. Nele não fazemos diagnóstico nem indicamos tratamentos para casos específicos. Se você apresenta sintomas persistentes, usa medicamentos, está grávida, amamentando ou tem condição crônica, procure acompanhamento profissional antes de mudanças na dieta, sono, exercícios ou uso de suplementos/fitoterápicos.