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Por Rodrigo Raposo

Tempo de Leitura: 8 minutos

Estudos sobre autoestima variam bastante, mas pesquisas populacionais mostram níveis significativos de insatisfação pessoal e autocrítica, especialmente em adolescentes e jovens adultos (Orth & Robins, 2014).

Neste artigo você vai entender como se origina muitos desses sofrimentos e uma dica valiosa para melhorar sua autoestima.

Nem tudo que chega até você é seu (ou pelo menos não deveria ser), mas a maior parte da dor de quem sofre de baixa autoestima começa quando esse detalhe é ignorado. 

A gente vive como se tudo que acontece ao nosso redor tivesse automaticamente o direito de “entrar” na nossa vida. Alguém fala algo, e aquilo já é aceito por nós: uma crítica, um julgamento, um comentário grosseiro… e pronto, aquilo começa a ocupar espaço, a ecoar, a moldar a forma como você se enxerga.Existe um momento, muito sutil, em que algo externo deixa de ser apenas algo que aconteceu e passa a ser algo que você carrega. E esse momento é o ponto de virada. Não é o que acontece que define o peso, mas sim o que você faz com aquilo depois.

A ideia errada sobre o desapego e autoestima

Na cultura em que a gente foi criado, desapego costuma ser mal interpretado. Muitas vezes ele é associado a frieza, desinteresse ou falta de compromisso, como se não se apegar significasse não se importar. Mas isso é uma distorção muito comum.

O desapego real não tem a ver com indiferença, mas sim com liberdade. 

Você pode se importar profundamente com algo ou com alguém, pode se envolver, sentir, agir… sem precisar transformar aquilo em parte da sua identidade, sem precisar carregar aquilo como se fosse seu. O problema começa quando essa linha se perde. Quando tudo vira “meu”. 

Meu problema, minha dor, minha rejeição, meu jeito (inclua aí várias coisas que tomamos como sendo nossas).

Essa apropriação parece pequena, mas ela cria um vínculo sutil. E todo vínculo, quando não é visto com clareza, se transforma em peso.

A fábula do samurai e o momento em que o sofrimento começa

A gente não sofre apenas pelo que acontece, mas pela forma como incorporamos aquilo. Existe uma diferença enorme entre viver uma experiência e se definir por ela. Mas, no dia a dia, essas duas coisas acabam se misturando o tempo todo.

Existe uma fábula samurai que ajuda a enxergar isso com mais clareza:

No Japão, viveu um samurai muito respeitado que, já em idade avançada, havia deixado os combates para se dedicar apenas ao ensino de sua filosofia a discípulos mais jovens. Mesmo assim, corria entre as pessoas a fama de que ele ainda era capaz de derrotar qualquer oponente. 

Certo dia, um jovem guerreiro, conhecido pela arrogância e pelo comportamento provocador, decidiu desafiá-lo. Ele não era apenas forte, mas também estrategista: usava a provocação como arma principal. Seu método era simples – provocar até que o adversário reagisse, observar seus movimentos, identificar suas fraquezas e, então, atacar com rapidez. 

Apesar de nunca ter perdido uma luta, ainda assim ficava incomodado com a reputação do velho samurai. Ele queria enfrentá-lo e vencê-lo. 

Os discípulos do mestre foram contra a ideia mas, para surpresa de todos, o velho samurai aceitou. 

No dia do confronto, o jovem começou com insultos. Xingou, provocou, cuspiu, falou coisas duras, inclusive desonrou os antepassados do mestre, tudo com o objetivo de tirá-lo do equilíbrio.

E, durante todo esse tempo, o velho permaneceu imóvel, calmo, inabalável. 

Cansado, frustrado e sem conseguir arrancar nenhuma reação, o jovem acabou desistindo e foi embora.

Os discípulos, no entanto, ficaram incomodados. Não entenderam o que tinham visto.

Os discípulos questionaram o mestre

– Como o senhor pôde aceitar tudo isso? Por que não reagiu? Mesmo que perdesse, não teria sido melhor do que parecer covarde diante de todos?

O mestre então respondeu com uma pergunta: – se alguém te oferece um presente e você não aceita… de quem é o presente?

Um dos discípulos respondeu: – de quem tentou entregar.

O mestre então concluiu: – o mesmo vale para a inveja, a raiva, os insultos. Quando você não os aceita, eles continuam pertencendo a quem os carrega. 

A força dessa fábula está justamente na simplicidade. Porque ela aponta para algo que a gente raramente considera: nem tudo que chega até nós precisa ser aceito. 

Nem todo “presente” precisa ser aceito

Xingamentos, julgamentos, expectativas, projeções… tudo isso pode ser visto como “presentes”. E eles só passam a fazer parte da sua vida no momento em que você os aceita.

No momento em que você pega aquilo e, sem perceber, diz: “isso é meu!”

E é exatamente aí que o sofrimento começa. Não no fato em si, mas na identificação com ele. Alguém diz algo sobre você, e aquilo deixa de ser apenas uma opinião externa para virar uma verdade interna. Alguém te rejeita e isso se transforma em um julgamento sobre o seu valor. Uma pessoa te critica e você passa a se enxergar através daquele filtro. 

A experiência, que era pontual, vira uma narrativa. E a narrativa, quando repetida, vira identidade. E com isso vem a baixa autoestima. 

Passamos boa parte do nosso tempo sofrendo, porque carregamos nas costas um presente (muitas vezes pesado) que sequer é nosso, apenas porque alguém nos ofereceu.

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O Ayurveda já dizia sobre isso há 5 mil anos

O Ayurveda descreve algo muito próximo dessa dinâmica ao afirmar que toda doença começa a partir de uma percepção equivocada da realidade. 

Isso não se limita ao que você come ou ao que acontece com você. Inclui, principalmente, a forma como você interpreta e internaliza essas experiências. Quando existe uma distorção na percepção, ou seja, quando você passa a se identificar com aquilo que não é você, inicia-se um processo que, com o tempo, pode se manifestar no corpo

O corpo responde à mente, e a mente responde à forma como percebe o mundo. 

Com isso, o problema deixa de estar apenas nas circunstâncias externas e passa a estar na forma como tudo isso é recebido e incorporado.

Como se enxergar com clareza e melhorar sua autoestima?

Existe uma diferença importante entre ignorar algo e não se identificar com aquilo.

Você não precisa negar que aconteceu um momento onde você foi insultada, nem precisa fingir que aquilo ocorreu. Tampouco precisa afastar a agressora da sua vida. Você só precisa entender até que ponto aquele presente é seu ou não. E se for seu, como você pode usá-lo da melhor forma.

Um olhar mais profundo sobre quem você é

Nos textos clássicos do Ayurveda, o ātma (seu verdadeiro Eu) é descrito como algo que não se mistura com as experiências, nem com os sentidos, nem com a mente. Ele apenas observa, sem se prender, sem se alterar com o que passa.

Justamente por isso que ele não sofre.

Essa ideia não é um convite para você se afastar da vida, das pessoas, mas para você parar de se confundir com ela. É um convite para você viver, sentir, se envolver – sem transformar suas experiências em identidade. 

A autoestima acontece quando você se conecta com ātma (Eu, self), afinal, a palavra autoestima é uma junção das palavras “auto” (Eu, self, ātma) com a palavra “estima”, que significa valor, respeito. 

E você? Quais presentes você anda aceitando, mas que não quer carregar?

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Perguntas Frequentes

1 – O que é baixa autoestima?

Baixa autoestima é uma forma de perceber a si mesmo marcada por autocrítica, insegurança e dificuldade de reconhecer o próprio valor. Ela pode surgir quando experiências externas, como críticas, rejeições ou julgamentos, passam a ser interpretadas como verdades sobre quem você é.

2 – Como melhorar a baixa autoestima?

Melhorar a baixa autoestima envolve aprender a observar com mais clareza aquilo que você sente, pensa e aceita como verdade sobre si. Nem toda crítica, rejeição ou expectativa externa precisa se transformar em identidade. Esse processo exige consciência, autoconhecimento e uma relação mais cuidadosa com a própria mente.

3 – Qual é a relação entre autoestima e autoconhecimento?

A autoestima está diretamente ligada ao autoconhecimento, porque a forma como uma pessoa se enxerga depende daquilo com que ela se identifica. Quanto mais clareza existe sobre quem você é, menor a tendência de se definir apenas por experiências difíceis, opiniões externas ou momentos de sofrimento.

4 – O Ayurveda pode ajudar na autoestima?

O Ayurveda pode contribuir para uma compreensão mais ampla da autoestima ao observar a relação entre corpo, mente, sentidos e percepção. Na visão ayurvédica, a forma como interpretamos a realidade influencia diretamente os processos de saúde e adoecimento. Por isso, cuidar da mente também faz parte do cuidado integral.


Este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não substitui avaliação médica, nutricional ou ayurvédica individualizada. Nele não fazemos diagnóstico nem indicamos tratamentos para casos específicos. Se você apresenta sintomas persistentes, usa medicamentos, está grávida, amamentando ou tem condição crônica, procure acompanhamento profissional antes de mudanças na dieta, sono, exercícios ou uso de suplementos/fitoterápicos.
Os profissionais que indicamos estão na Dr. Integra.


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