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Neuroplasticidade e o mito do “eu não consigo”

Você sabia que a forma como você pensa, sente, dorme, se alimenta e reage à vida remodela o funcionamento do seu cérebro?

Por Rodrigo Raposo

Tempo estimado de leitura: 10 minutos

Durante muito tempo a ciência acreditou que o cérebro era uma estrutura fixa. A ideia predominante era a de que nascemos com uma quantidade limitada de neurônios e que, ao longo da vida, essas células apenas morreriam progressivamente, sem grande capacidade de renovação ou reorganização. O cérebro era visto como “uma máquina biológica rígida”, onde você nascia de um jeito, aprendia algumas coisas durante a infância e depois passava o resto da vida operando dentro daqueles mesmos limites neurológicos. 

Durante décadas, inclusive, repetiu-se quase como uma verdade absoluta a frase “neurônio não se regenera”. Mas hoje sabemos que isso está longe de ser verdade.

A neurociência moderna revolucionou essa compreensão ao demonstrar que o cérebro possui uma enorme capacidade de adaptação chamada neuroplasticidade, que é a habilidade do sistema nervoso de modificar continuamente sua estrutura, suas conexões e seu funcionamento com base nos estímulos que recebe ao longo da vida. 

Isso significa que aquilo que você vive diariamente não afeta apenas suas emoções de forma abstrata. Seus hábitos moldam seu cérebro fisicamente. A sua alimentação, sono, atividade física, silêncio, estresse, relações humanas, experiências emocionais, excesso de estímulos, pensamentos repetitivos e até a maneira como você interpreta a realidade influenciam os circuitos neurais que vão sendo fortalecidos dentro de você. 

Seu cérebro não é uma fotografia congelada, mas muito mais parecido com um organismo vivo em constante adaptação ao ambiente que encontra todos os dias.

Neste artigo vamos compreender:

– O que é neuroplasticidade;
– Por que a antiga ideia de que “neurônios não se regeneram” mudou;
– Como hábitos diários remodelam o cérebro;
– A influência das emoções repetidas sobre a percepção da realidade;
– Como sentimentos como medo, escassez, raiva e ansiedade moldam padrões mentais;
– A relação entre perspectiva psicológica e saúde física;
– Como a mente aprende estados emocionais;
– Por que duas pessoas podem viver realidades parecidas e experienciar vidas diferentes;
– O que os estudos modernos vêm descobrindo sobre cérebro, comportamento, adaptação e saúde mental.

Neuroplasticidade: O cérebro se transforma naquilo que você mais repete

Neuroplasticidade é, essencialmente, a capacidade que o cérebro possui de reorganizar suas conexões neurais de acordo com os estímulos e experiências vividos. Durante muito tempo, acreditou-se que o desenvolvimento cerebral acontecia apenas na infância e adolescência, mas hoje sabemos que o cérebro continua mudando durante a vida.

Ele cria novas conexões, fortalece circuitos já existentes e enfraquece padrões pouco utilizados continuamente, como uma espécie de adaptação permanente ao ambiente interno e externo. Isso significa que toda experiência repetida funciona como um treino neurológico.

E isso vale não apenas para habilidades técnicas ou intelectuais, mas também para emoções, padrões, padrões de pensamento e formas de reagir à vida. Aprender um instrumento musical fortalece determinados circuitos neurais, praticar meditação fortalece outros. Viver em estado constante de ansiedade também fortalece circuitos específicos relacionados à hipervigilância, medo e resposta ao estresse. Da mesma forma, cultivar estados frequentes de irritação, raiva, mágoa ou pessimismo também modifica o funcionamento cerebral ao longo do tempo.

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Seu cérebro aprende aquilo que você pratica repetidamente. Essa é uma das ideias mais importantes da neuroplasticidade: não treinamos apenas habilidades, mas sim maneiras de existir. 

Estudos modernos de neuroimagem demonstram, por exemplo, que indivíduos submetidos a processos intensos de aprendizado desenvolvem alterações estruturais mensuráveis no cérebro, incluindo mudanças na densidade de substância cinzenta e reorganização funcional de determinadas regiões cerebrais (Draganski et al., 2004).

O nosso cérebro está o tempo inteiro tentando se adaptar àquilo que entende como “necessário para sobrevivência”. O problema é que ele não diferencia muito bem aquilo que você escolher conscientemente daquilo que voc6e simplesmente repete todos os dias sem perceber.

Neuroplasticidade e o poder da mentalização

A neurociência moderna também vem investigando algo que, durante muito tempo, foi tratado apenas como “pensamento positivo” ou imaginação: o poder da mentalização. Estudos mostram que visualizar, mentalizar ou verbalizar repetidamente determinados movimentos, comportamentos, palavras ou experiências pode ativar áreas cerebrais muito semelhantes às ativadas durante a execução real da ação. 

Isso significa que a maneira como você mentaliza, verbaliza, interpreta e ensaia mentalmente situações também influencia o cérebro fisicamente. Pesquisas com atletas, músicos e processo de reabilitação neurológica demonstraram  que o treinamento mental pode fortalecer circuitos neurais relacionados à aprendizagem motora, desempenho e adaptação cerebral. Em outras palavras, o cérebro não responde apenas ao que acontece externamente, mas também àquilo que é vivido internamente através da mentalização, da atenção e da repetição mental consciente (Pascual-Leone et al., 1995; Decety, 1996).

A mente também recebe nutrição diariamente

O ser humano é um bicho curioso: se preocupa com metas diárias de proteína etc, academia etc., mas raramente observa com o mesmo cuidado quais estímulos emocionais e mentais consomem diariamente.

Assim como o corpo, a mente também é nutrida, só que a cada minuto do dia. Essa nutrição não ocorre apenas através de livros ou estudos. Ela ocorre através das conversas que você mantém, dos conteúdos que você consome na TV, no celular, no computador, nas redes sociais que você utiliza, das pessoas ao seu redor, dos ambientes em que você vive e, principalmente, dos pensamentos e emoções que repete continuamente dentro de si mesma.

Se você passa anos alimentando medo, mágoa, raiva, comparações, escassez, esses estados emocionais deixam de ser apenas sentimentos passageiros e começam a se tornar uma espécie de linguagem habitual do cérebro. Aos poucos, o sistema nervoso aprende que aquela é a forma “normal” de interpretar o mundo. Seu cérebro passa então a procurar continuamente evidências que reforcem essa perspectiva. É como se sua mente fosse ficando muito eficiente em enxergar exatamente aquilo que mais pratica enxergar.

Da mesma forma, padrões mais resilientes, otimistas e construtivos também fortalecem circuitos neurais diferentes. Isso não significa ignorar problemas reais ou viver numa positividade artificial, mas compreender que a forma como você se relaciona internamente com a sua realidade altera a maneira como você experiencia essa própria realidade. Estudos mostram que experiências emocionais repetidas podem modificar circuitos ligados à atenção, regulação emocional, percepção de ameaça e resposta ao estresse (Davidson & McEwen, 2012).

Ou seja, a maneira como você nutre sua mente acaba moldando a própria lente através da qual você enxerga.

A vida é negativa e também positiva

Existe uma tendência humana de tentar rotular a vida em totalmente positiva ou totalmente negativa. Mas talvez nenhuma dessas visões seja totalmente verdadeira. Sim, existe dor, sofrimento, tragédia, caos. Mas também existe beleza, paz, aprendizado e transformação. Todas as experiências coexistem constantemente. 

O que eu quero chamar a atenção aqui é que o cérebro humano tende a fortalecer apenas os circuitos emocionais e perceptivos que mais utiliza. Isso ajuda a explicar porque duas pessoas podem atravessar situações parecidas e ainda assim encararem essas experiências de forma diferente. Dois irmãos que habitam a mesma casa, um deles pode desenvolver uma postura de resiliência, adaptação, aprendizado e gratidão, diante das dificuldades do dia a dia na família. O outro encara esses mesmos problemas familiares com ressentimento, paralisação e desânimo, porque ambos nutrem seus cérebros com pensamentos diferentes. 

A neuroplasticidade não significa que podemos controlar tudo o que sentimos ou eliminar emoções difíceis. O que ela mostra é que percepção, interpretação e reação emocional também são capacidades treináveis. A forma como respondemos repetidamente às experiências acaba se consolidando em padrões neurais automáticos. 

O cérebro aprende estados emocionais

Uma das descobertas mais interessantes da neurociência moderna seja perceber que não treinamos apenas conhecimento intelectual, mas também estados emocionais. O cérebro aprende padrões de reação exatamente da mesma forma que aprende habilidades motoras ou cognitivas.

Uma pessoa que passa a vida toda reclamando constantemente de tudo, vivendo em estado contínuo de comparação ou alimentando pensamentos negativos não está apenas “desabafando”. Ela está fortalecendo continuamente esses circuitos neurais ligados à ruminação mental, hipervigilância e estresse crônico. Aos poucos, o cérebro se adapta biologicamente a funcionar naquele padrão.

Da mesma forma, pessoas que desenvolvem práticas de auto observação, auto controle, silêncio, meditação, gratidão e presença também passam a fortalecer redes neurais relacionadas à resiliência emocional, regulação do estresse e estabilidade psicológica.

Isso ajuda a compreender algo importante: saúde mental não depende apenas daquilo que acontece com você, mas também da forma como o seu cérebro aprende a interpretar, organizar e responder às experiências da vida.

Estudos utilizando ressonância magnética funcional demonstraram, por exemplo, que práticas meditativas podem alterar áreas cerebrais relacionadas à memória, empatia, atenção e regulação emocional, inclusive aumentando a espessura cortical em determinadas regiões do cérebro (Lazar et al., 2005).

Aquilo que você pratica mentalmente deixa marcas físicas reais no sistema nervoso.

O problema não é sentir emoções negativas, mas morar nelas

Toda emoção humana possui função biológica e psicológica. Raiva, tristeza, medo, frustração e ansiedade fazem parte da experiência humana saudável. O problema não é sentir emoções negativas. O problema começa quando determinados estados emocionais deixam de ser passageiros e passam a se tornar residência permanente dentro do organismo. Porque aquilo que se repete constantemente acaba sendo fortalecido neurologicamente.

Quando o cérebro permanece continuamente em estado de ameaça, ele adapta o corpo inteiro para sobreviver à ameaça. Isso inclui aumento persistente de cortisol, hipervigilância, tensão muscular, piora do sono, alterações digestivas, desgaste imunológico e aumento de processos inflamatórios sistêmicos.

Hoje, diversos estudos já demonstram que estresse crônico e sofrimento emocional persistente possuem relação importante com inflamação sistêmica, imunidade, doenças cardiovasculares, distúrbios digestivos e adoecimento físico geral (McEwen, 2007).

A maneira como você vê a vida não influencia apenas suas emoções. Ela influencia também sua fisiologia.

Você não controla totalmente a colheita, mas participa do plantio

Boa parte da vida foge ao nosso controle. Imprevistos acontecem, perdas acontecem. Frustrações fazem parte da existência humana. Nenhuma pessoa consegue controlar tudo aquilo que irá viver ao longo da vida.

Mas existe algo importante que pode ser cultivado diariamente: a forma como o seu cérebro aprende a responder às experiências vividas, as expectativas frustradas.

E é isso que é a neuroplasticidade. Apesar de você não controlar todos os acontecimentos da vida, você influencia aquilo que seu sistema nervoso aprende a repetir internamente. Cada pensamento recorrente, cada hábito emocional, cada ambiente frequentado e cada padrão de reação funciona como uma espécie de treino constante do cérebro. 

Conclusão

A neuroplasticidade transformou a maneira como compreendemos o cérebro humano. Hoje sabemos que o cérebro não é uma estrutura rígida, fixa ou condenada a repetir eternamente os mesmos padrões emocionais e comportamentais. Ele aprende, reorganiza-se e adapta-se com base naquilo que vive repetidamente.

Isso significa que hábitos simples – sono, alimentação, silêncio, movimento, relações humanas, mentalização e estados emocionais – possuem impacto real sobre o funcionamento neurológico, emocional e físico do organismo.

Perguntas frequentes

1 – O que é neuroplasticidade?

É a capacidade do cérebro de modificar suas conexões e funcionamento em resposta às experiências, hábitos e estímulos vividos ao longo da vida.

2 – O cérebro realmente muda depois da infância?

Sim. Estudos modernos mostram que o cérebro continua criando e reorganizando conexões neurais durante toda a vida, inclusive na idade adulta.

3 – Emoções influenciam fisicamente o cérebro?

Sim. Emoções repetidas alteram circuitos neurais, hormônios do estresse e mecanismos fisiológicos do sistema nervoso.

4 – Pensamentos negativos podem afetar a saúde física?

Podem. Estresse emocional crônico está associado a inflamação sistêmica, alterações hormonais e maior risco de adoecimento físico.

5 – Meditação realmente altera o cérebro?

Sim. Estudos mostram mudanças em áreas relacionadas à atenção, memória, empatia e regulação emocional.



Este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não substitui avaliação médica, nutricional ou ayurvédica individualizada. Nele não fazemos diagnóstico nem indicamos tratamentos para casos específicos. Se você apresenta sintomas persistentes, usa medicamentos, está grávida, amamentando ou tem condição crônica, procure acompanhamento profissional antes de mudanças na dieta, sono, exercícios ou uso de suplementos/fitoterápicos.

Os profissionais que indicamos estão na Dr. Integra.


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