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Por Rodrigo Raposo
Vinho faz bem ou mal? O vinho sempre esteve cercado de opiniões contraditórias.
Enquanto alguns especialistas afirmam que ele faz bem para o coração, outros alertam para seus riscos à saúde.
Um cardiologista pode dizer que uma taça de vinho por dia ajuda a proteger o sistema cardiovascular.
Enquanto que um oncologista diz que o álcool – presente nas bebidas alcoólicas – é classificado como carcinógeno classe 1 pela OMS (IARC, 1988; NCI, 2024).
A maior causa de morte no mundo são as doenças cardiovasculares, enquanto o câncer está entre as principais causas globais de mortalidade.
Sendo assim, muitas pessoas ficam em dúvida sobre qual risco considerar mais relevante.
Então… o que fazer?
Assista ao vídeo que inspirou este artigo
Vinho faz mal?
Por que alguns cardiologistas recomendam vinho?
Diversos estudos observaram que o consumo moderado de vinho, especialmente vinho tinto, pode estar associado a menor risco de eventos cardiovasculares.
Inclusive, uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2023 encontrou associação entre consumo moderado de vinho e redução do risco de doença cardiovascular e mortalidade cardiovascular (Castaldo et al., 2023).
Entre os possíveis mecanismos estudados estão:
– redução da oxidação do LDL (colesterol de baixa densidade)
– melhora da função endotelial
– redução da agregação plaquetária
Esses efeitos são frequentemente atribuídos a compostos fenólicos presentes no vinho, como resveratrol e outros antioxidantes derivados da uva.
Mas existe um detalhe importante.
Esses compostos não são exclusivos do vinho.
Porque eles vêm da uva, especialmente da casca e das sementes.
Ou seja, esses fitonutrientes associados aos benefícios cardiovasculares são compostos da planta, e não necessariamente do processo de fermentação.
Por isso, alguns pesquisadores sugerem que parte desses benefícios poderia ser obtida também pelo consumo de uvas ou outros alimentos ricos em polifenóis, como o mirtilo, amora, romã, jabuticaba, orégano, cravo, avelã, azeite de oliva extravirgem, entre outros.
O álcool e o risco de câncer
Ao mesmo tempo, existe evidência científica robusta de que o álcool aumenta o risco de diversos tipos de câncer.
Desde 1988, a IARC classifica o álcool como carcinógeno do Grupo 1, categoria reservada para substâncias com evidência suficiente de causar câncer em humanos (IARC, 1988; WHO, 2025).
Sendo assim, estudos epidemiológicos demonstram associação entre consumo de álcool e cânceres como:
– cavidade oral
– faringe
– laringe
– esôfago
– fígado
– mama
– colorretal
(NCI, 2024; IARC, 2023).
Além disso, há evidências de que quanto maior o consumo, maior o risco, mas mesmo níveis baixos de ingestão podem aumentar a probabilidade de alguns cânceres, como o de mama (WHO, 2025).
Globalmente, estima-se que cerca de 740 mil casos de câncer por ano estejam associados ao consumo de álcool (Rumgay et al., 2021).
O problema do consumo moderado de vinho
Primeiramente, precisamos saber que, além do álcool, muitos vinhos contêm sulfitos (dióxido de enxofre), utilizados como conservantes durante a produção.
Os sulfitos ajudam a:
– evitar oxidação
– estabilizar o vinho
– aumentar sua durabilidade
Porém, em algumas pessoas eles podem desencadear reações como:
– crises de asma
– cefaleia
– rinite
– reações de intolerância
Ademais, estudos clínicos mostram que indivíduos sensíveis, especialmente asmáticos, podem apresentar sintomas após exposição a sulfitos em alimentos ou bebidas (Vally & Thompson, 2001).
O que o Ayurveda diz sobre o álcool?
Os textos clássicos do Ayurveda também descrevem bebidas alcoólicas.
O Bhāvaprakaśa Nighaṇṭu, um dos textos clássicos mais recentes do Ayurveda, escrito no século 16, por exemplo, menciona diferentes tipos de bebidas fermentadas utilizadas medicinalmente.
Mas existem diferenças importantes entre essas bebidas antigas e o álcool consumido atualmente.
1 – Teor alcoólico menor
As bebidas tradicionais descritas nos textos clássicos do Ayurveda costumam ter teor alcoólico relativamente baixo quando comparadas às bebidas modernas.
Porém, em alguns casos, quando o teor é mais elevado, os textos recomendam diluir a bebida em água antes do consumo.
2 – Preparações medicinais
Muitas dessas bebidas eram preparações fermentadas contendo ervas medicinais, usadas em doses pequenas e com objetivo terapêutico.
Ou seja, isso é muito diferente do padrão moderno de consumo recreativo de álcool.
O álcool e o equilíbrio fisiológico segundo o Ayurveda
Na fisiologia do Ayurveda, o coração é descrito como o centro da circulação e da distribuição de rasadhātu, que é o primeiro tecido corporal responsável por nutrir os demais tecidos do corpo humano.
O coração também está relacionado ao funcionamento:
– dos doṣas
– da mente
– de ojas, a essência da vitalidade e imunidade.
Quando o álcool entra na corrente sanguínea, ele é metabolizado principalmente no fígado. Sendo assim, quando a quantidade ingerida excede a capacidade metabólica do organismo, o álcool e seus metabólitos permanecem circulando no sangue.
Do ponto de vista bioquímico, o etanol é convertido em acetaldeído, uma substância tóxica que pode causar estresse oxidativo e danos celulares (Seitz & Stickel, 2007).
Na visão do Ayurveda, o álcool possui qualidades como:
– quente
– leve
– intenso
– ressecativo
Enquanto que, essas características são opostas às qualidade de ojas, que incluem:
– frio
– pesado
– suave
– estável
– oleoso
Por isso, o consumo excessivo de álcool é considerado capaz de reduzir ojas e desestabilizar os doṣas, afetando tanto o corpo quanto a mente.
As 4 fases da intoxicação alcoólica segundo o Ayurveda
Os textos clássicos também descrevem estágios progressivos de intoxicação pelo álcool. Tanto o Caraka Saṃhitā (escrito há 5 mil anos), como o Aṣṭāṅga Saṅgraha (escrito há 1.500 anos) descrevem estágios progressivos de intoxicação pelo álcool.
Primeiro estágio – intoxicação inicial (Prathama Mada)
O estágio inicial da intoxicação alcoólica é, paradoxalmente, percebido como agradável.
A pessoa pode experimentar uma sensação de bem-estar e leve aumento da vitalidade.
Entre as manifestações descritas estão:
– euforia e alegria intensa
– sentimentos de afeição ou atração
– maior sociabilidade
Nesse estágio, o comportamento tende a se tornar mais expansivo: a pessoa canta, ri, conta histórias e demonstra entusiasmo.
Apesar da intoxicação inicial, os sentidos ainda funcionam com relativa clareza.
Segundo a descrição clássica, esse estágio frequentemente termina com um sono profundo, embora ao despertar possa haver leve inquietação.
Segundo estágio – intoxicação moderada (Dvitīya Mada)
À medida que o consumo continua, o álcool começa a afetar de forma mais evidente as funções cognitivas.
Nesse estágio surgem alterações como:
– fala confusa e desconexa
– mistura de palavras coerentes com frases sem sentido
– memória instável, com lembranças e esquecimentos frequentes
O comportamento também se torna mais desorganizado.
A pessoa pode:
– realizar ações estranhas ou desajeitadas
– sentar, comer ou beber de forma descoordenada
– apresentar atitudes que outras pessoas percebem como engraçadas ou inadequadas.
Nesse ponto, a clareza mental já começa a se deteriorar de forma perceptível.
Terceiro estágio – intoxicação grave (Tṛtīya Mada)
Esse é o estágio avançado e potencialmente perigoso da intoxicação alcoólica.
Nesse estágio, rajas (agitação) e tamas (torpor) afetam profundamente o indivíduo.
Entre as manifestações descritas estão:
– perda acentuada da consciência
– estupor ou torpor mental
– agitação mental, podendo levar à agressividade
– incapacidade de reconhecer objetos ou situações corretamente
– perda de controle sobre o corpo e sobre o comportamento
Nesse nível de intoxicação, o risco para a saúde aumenta significativamente.
Os textos clássicos do Ayurveda associam esse estágio às formas mais graves de intoxicação alcoólica, que podem evoluir para madātyaya, condição relacionada ao consumo excessivo ou crônico de álcool.
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Então… devemos beber vinho?
A resposta deve sempre depender do motivo.
Se o seu objetivo for obter antioxidantes benéficos ao coração, provavelmente faz mais sentido consumir frutas vermelhas frescas e outros alimentos ricos em polifenóis, pois eles fornecem esses mesmos compostos sem os riscos associados ao álcool.
Por outro lado, se o vinho faz parte da sua cultura alimentar ou da sua experiência gastronômica, a recomendação mais prudente seria consumir vinho de forma consideravelmente moderada. Ingerir uma taça uma vez ao mês é menos danoso do que consumir uma vez ao dia.
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Perguntas frequentes
Depende. O vinho contém compostos da uva associados a possíveis benefícios, mas também contém álcool, que traz riscos à saúde. Por isso, ele não pode ser visto como algo simplesmente “bom” ou “ruim”.
Alguns estudos associam o consumo moderado de vinho a benefícios cardiovasculares. Ainda assim, esses efeitos podem estar mais ligados aos compostos da uva do que ao álcool em si.
Sim. O álcool está associado ao aumento do risco de diferentes tipos de câncer, e esse é um dos principais pontos de atenção quando se fala em consumo de vinho.
Nem sempre. Se o objetivo for obter polifenóis e outros compostos benéficos, muitas vezes faz mais sentido buscá-los em frutas e outros alimentos, sem os efeitos do álcool.
Este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não substitui avaliação médica, nutricional ou ayurvédica individualizada. Nele não fazemos diagnóstico nem indicamos tratamentos para casos específicos. Se você apresenta sintomas persistentes, usa medicamentos, está grávida, amamentando ou tem condição crônica, procure acompanhamento profissional antes de mudanças na dieta, sono, exercícios ou uso de suplementos/fitoterápicos.