O QUE SÃO OS SAMHITAS? - VIDAVEDA

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25/09/2019
O QUE SÃO OS SAMHITAS?

Uma exposição dos Samhitas por Matheus Macêdo e Jaqueline Halack.

No Vida Veda praticamos Ayurveda de acordo com os Samhitas e no artigo de hoje vamos responder a seguinte pergunta: o que são os samhitas?

Os samhitas são os textos mais antigos da ciência ayurvédica e as fontes originais do que eu chamo de Ayurveda baseado nos samhitas. Não são a única maneira de aprender Ayurveda, mas são a minha maneira preferida. É possível aprender ayurveda de outros ramos. Por exemplo, se você quer estudar astrologia védica, que a gente chama de Jyotish, você pode procurar um guru e você pode morar com um guru e seguir o guru durante anos, décadas e aos poucos esse pensamento pode ser passado num sistema que a gente chama de guru shishya parampara — é uma tradição direta entre guru e discípulo. Outro sistema de conhecimento que passa muito por essa relação de guru e discípulo é o sistema que a gente chama de nadi pariksha — é o diagnóstico por meio de uma tomada do pulso. Se você for usar os samhitas para poder aprender nadi pariksha, seu conhecimento vai ficar faltando bastante, porque nadi pariksha é uma ciência que é muito pouco referida, quase nada é referido nos samhitas principais. Entre os três samhitas principais o Caraka Samhita, o Sushruta Samhita e o Ashtanga Hrdayam ela não é nem mencionada, para falar a verdade. A técnica é pouco referida e pouco relevante. Então, se você quiser ser um nadibaba, um mestre de nadi, o ideal é que você vá procurar um guru e ele vai lhe transmitir esse conhecimento ao longo do tempo. Tem uma história de um amigo meu que foi aprender nadi pariksha. Ele largou a faculdade, não queria aprender o sistema que a gente estuda, e foi morar com um guru. Ele passou os dois primeiros anos só limpando a casa do guru até que finalmente um dia o guru começou a ensiná-lo. Então, o sistema de guru e discípulo — guru shishya parampara — tem várias provações e é necessário seguir a tradição religiosa, cultural do país. Enquanto que os samhitas têm um benefício muito claro: você tem autonomia plena. Uma vez que você saiba a língua na qual eles estão escritos: o sânscrito; e que você consiga navegar a poesia, a linguagem poética que é usada, você tem total autonomia para conseguir explorar e praticar o Ayurveda. Então o Ayurveda baseado nos samhitas, é um sistema que empodera bastante o estudante e o médico e é por isso que é o sistema que eu tive o privilégio de escolher para ser a minha fonte do conhecimento ayurvédico.

Então vamos falar um pouquinho desses samhitas. Dentro do nosso sistema de Ayurveda baseado nos samhitas, a gente tem dois grupos principais de samhitas. Um grupo a gente chama de Brhat Trayi, a trindade maior, os três livros principais, que são o Caraka Samhita, o Sushruta Samhita e o Ashtanga Hrdayam; e o Laghu Trayi, que são os três livros acessórios, os três livros que complementam a trindade principal que são o Sharangadhara Samhita, o Madhava Nidana e o Bhavaprakash Nighantu. Vamos falar um pouco desses seis livros para que vocês entendam qual é posição que eles ocupam dentro dos ensinamentos do Ayurveda baseado nos samhitas. O Caraka Samhita é o samhita mais antigo. Ele foi escrito entre 3 e 4 mil anos atrás e é um livro de medicina geral que a gente chama de Kayachikitsa.

Em segundo lugar vem o Sushruta Samhita. É um livro que tem mais ou menos 2 mil anos e é especializado no ramo que a gente chama de Shalyachikitsa, o ramo de cirurgia. Esse é o livro por excelência de todos os médicos e estudantes que querem se especializar em cirurgia ayurvédica. Então, o Sushruta Samhita, é um livro muito menos estudado, principalmente no ocidente, especificamente porque as pessoas acham que ele só fala de cirurgia. O que não é bem verdade. O Sushruta também é um livro incrível para Panchakarma e de Kayachikitsa, por exemplo. Em terceiro lugar nós temos o Ashtanga Hrdayam, o livro mais famoso. Diferente do Caraka, do Sushruta e do Ashtanga Samgraha, o Ashtanga Hrdayam não tem nada de prosa, então ele é muito mais fácil de memorizar, mais fácil de recitar. Esse livro é muito mais fácil de ser passado de geração para geração, por isso que ele é louvado no sul da Índia como o clássico ayurvédico por excelência. Hoje em dia as pessoas consideram que o Caraka Samhita já é um livro bastante complexo, complexo até demais, e preferem eleger o Ashtanga Hrdayam como o centro dos seus estudos e da sua prática. Na verdade, o Ashstanga Hrdayam não faz nada mais do que pegar o Caraka, o Sushruta, o Harita, o Bhela, que são outros Samhitas, muito mais antigos do que ele, e compilar essas informações. Então o Ashtanga Hrdayam não inova de maneira nenhuma a ciência médica. O que ele faz é só sintetizar o conhecimento de uma forma perfeita que ele chama de “nati samkshepa vistaram” — nem é muito curto, nem é longo demais.

Falando um pouco do Laghu Trayi, o Madhava Nidana, que é um texto que foi escrito em 500 D.C. ele simplesmente sintetiza, aglutina tudo que a gente tem de informação nos outros samhitas sobre a ciência de Nidana. Nidana é a maneira pela qual a gente encontra a causa das doenças. É quando você analisa a causa, a patogênese da doença e os lakshanas, os sintomas que aquela doença vai exibir. O Madhava Nidana é um livro de sintomatologia e de diagnóstico, mas ele não é um livro de tratamento e nem de princípios básicos. O segundo livro da pequena trindade é o Bhavaparkash que foi escrito em 1500 D. C., quer dizer, tem uns 500 anos atrás. O Bhavaparkash não é considerado um samhita, ele é um nighantu. Então ele é um livro que explora a matéria médica, que é a ciência que a gente chama de Dravyaguna. O livro analisa os elementos, as drogas, as medicinas, os alimentos e tenta entender se naquele momento, 1500 anos depois de Cristo, se esses elementos, se esses materiais ainda se mantêm da maneira como eram prescritos nos samhitas. Então ele vai dar uma atualização e talvez seja o nighantu mais respeitado de todos os nighantus entre o Raj Nighantu, Madanapala Nighantu, etc. O Bhavaparkash Nighantu é talvez o mais respeitado de todos. Por isso que ele entra na pequena trindade. O último livro que a gente vai falar sobre, dentro da Laghu Trayi, que é a pequena trindade, é o Sharangadhara Samhita. O Sharangadhara foi escrito em 1200 D.C. e é um livro que entra mais dentro da ciência que a gente chama de Bhaishajya Kalpana. Então ele fala sobre métodos de preparação, de formulação. É como se fosse a nossa farmácia. Como preparar óleos. Como fazer um ghee medicado, de que maneira se preparam os remédios, as pílulas, as cápsulas, os pós. Então, tudo isso é a matéria que a gente chama de Bhaishajya Kalpana e é a matéria estudada dentro do Sharangadhara Samhita.

De forma geral, os samhitas são divididos em sthanas, adhyayas e slokas. Então o samhita é a obra maior. O samhita é dividido em sessões menores, em volumes menores, que a gente chama de sthanas. Os sthanas são divididos em adhayas que são os capítulos e dentro dos capítulos nós temos slokas, que são as frases ou versos. Então, a maioria deles, que são 3 pelo menos do Brhati Trayi: o Caraka, o Sushruta e o Ashranga, trabalham com o número de 120 capítulos, 120 adhyayas. A quantidade de sthanas varia. Então o Caraka Samhita tem alguns sthanas que o Ashtanga Hrdayam não tem. O Sushruta tem sthanas que o Caraka Samhita não tem, mas isso somente um estudo mais aprofundado de cada samhita permite entender melhor.

Espero que esse artigo tenha dado uma compreensão melhor do que são os samhitas.



Comentários

  1. Janete Leitão disse:

    Olá,
    Toda literatura Samhita está em sânscrito ou existe traduções?

    1. vidaveda disse:

      Bom dia Janete. Existe uma tradução em português baseada numa tradução em inglês, ela é incompleta e não é muito boa. Recomendo a tradução em inglês que está na área de livros do site 😉

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