PRECISAMOS FALAR SOBRE AIDS

Por Anelize Moreira, editora de conteúdo do Vida Veda

Quantas pessoas no seu círculo de amigos falam sobre Aids? Uma? Nenhuma? Ou esse tipo de assunto virou papo só da galera que trabalha com saúde?

Quem tem mais de 30 anos se lembra das capas de jornais e revistas, e de reportagens de TV com esse tema bem presente no dia a dia, com milhares de pessoas morrendo em decorrência de complicações da doença nas décadas de 1980 e 1990.

Foi o caso de artistas como o cantor Cazuza, o escritor Caio Fernando Abreu, o sociólogo Betinho, que inclusive foi um ativista do combate ao HIV, o cartunista Henfil e tantos outros que chamaram atenção para o problema.

Nessa época a doença foi considerada uma das epidemias mais violentas do século. O uso da camisinha foi amplamente divulgado na rede pública de saúde e campanhas de combate à doença eram frequentes nos meios de comunicação e nas escolas.

Pois bem, vamos voltar para 2019. Nos últimos anos, assim como a sífilis e o sarampo, a Aids parecia estar extinta no país. Isso porque o Brasil se tornou uma referência mundial no tratamento do HIV, os números de transmissão caíram, os tratamentos evoluíram e o que era sentença de morte e um pânico para quem convivia com a doença se tornou uma possibilidade de ter uma vida saudável.

Só para se ter ideia, nos anos 1990, Brasil e África do Sul tinham taxas parecidas de infecção por HIV. Hoje, 18% da população da África do Sul têm o vírus, contra 0,4% da brasileira.

Desde 1996, o Brasil distribui gratuitamente pelo SUS todos os medicamentos antirretrovirais e em 2013 passou a garantir o tratamento para todas as pessoas.

Apesar dos avanços no combate à doença, neste domingo (1º de dezembro), foi Dia Mundial de Combate à Aids, data em que anualmente o mundo reforça a conscientização sobre a doença.

E infelizmente falar disso não é coisa do passado. O Ministério da Saúde estima que no Brasil pelo menos 135 mil pessoas vivem com HIV, mas não sabem.

HIV e Aids têm diferença. A primeira situação é quando a pessoa é portadora do vírus. Na segunda, o infectado já desenvolveu a doença.

Com certeza a face da epidemia mudou, mas ainda existe muita gente que não recebeu o tratamento porque não foi diagnosticada. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) existem no mundo 8,1 milhões de pessoas que vivem com o vírus da imunodeficiência humana (HIV), mas ainda não foram diagnosticadas e não têm acesso ao tratamento.

Apesar das redes sociais e maior acesso à informação por meio da internet, há ainda um estigma sobre a doença e falta conscientização sobre a importância da prevenção, diagnóstico e tratamento.

O Dia Mundial de Combate à Aids, cria oportunidade para o diálogo entre a geração dos adultos que tiveram medo e os jovens de hoje que não vivenciaram a Aids na época mais crítica. Essa realidade pode ser vista no documentário ‘Carta Para Além dos Muros’ que conta a história da epidemia do HIV nas últimas três décadas.

O longa mostra que na década de 1990, a Aids estava mais presente nas conversas por conta do medo. Havia uma crença disseminada pelos grupos religiosos que o vírus era castigo divino, alguns jornais publicaram manchetes do tipo: “Aids é castigo de Deus, porque bicha é uma raça desgraçada”.

A doença era considerada coisa de gente marginalizada e a discriminação contra grupos como LGBT, dependentes químicos e profissionais do sexo.

Mas, agora você poderia se perguntar: se estamos cada vez mais cercados de informação, camisinhas são encontradas gratuitamente em postos de saúde e até estações de metrô e tivemos avanços no tratamento, o que falta para doença ser erradicada?

Falta esse assunto ser amplamente debatido como expõe o filme. Parte desse imaginário de estigma, desinformação e preconceito relacionado ao HIV/Aids ainda está presente nos dias de hoje.

O vírus ainda é visto como algo imoral e isso é o que pode deixar os grupos vulneráveis ainda mais suscetíveis a doença. A maioria dos casos de infecção no país é registrada na faixa etária de 20 a 34 anos, com 18,2 mil notificações, representando 57,5% do total de notificações da doença.

O tema precisa ocupar as salas de aulas sem encontrar barreiras para o acesso dos jovens à educação sexual e sexualidade. Além disso, as campanhas precisam dialogar com as novas gerações e estar onde elas estão conectadas.

No Brasil mais de 360 mil pessoas, entre as 900 mil que vivem com HIV, estão fora do tratamento eficaz.

Jovens YouTubers, influenciadores e ativistas digitais debatem o HIV abertamente na internet para acabar com a discriminação no Brasil. E é essa atitude que precisamos ter: falar abertamente para que a doença deixe de se um tabu ou um assunto do “outro”, que não acontece comigo.

No documentário que mencionamos, um áudio de uma entrevista de Cazuza para a TV Bandeirantes, em 1988, esclarece muito sobre preconceito de setores mais conservadores: “A Aids caiu como uma luva, modelinho perfeito da direita e da Igreja. A aids caiu assim como um taileur para eles, que nunca estiveram tão elegantes…e deselegantes principalmente”.

Já o escritor Caio Fernando Abreu manifestou publicamente em carta a um jornal em 1994, a dificuldade das pessoas soropositivas de falarem sobre o assunto: “Alguma coisa aconteceu comigo. Alguma coisa tão estranha que ainda não aprendi o jeito de falar claramente sobre ela. Quando souber finalmente o que foi, essa coisa estranha, saberei também esse jeito. Então serei claro, prometo. Para você, para mim mesmo. Como sempre tentei ser. Mas por enquanto, por favor, tente entender o que tento dizer.”

As falas dos dois artistas estão super atuais e apontam caminhos para voltar a dialogar, continuar a lutar contra a discriminação, dando apoio a quem precisa.

Saiba mais sobre a campanha

A campanha lançada no Dia Mundial de Combate à Aids quer incentivar a procura pelo teste rápido. Com o slogan: “HIV/AIDS. Se a dúvida acaba, a vida continua”, a ação quer mudar na população jovem a atitude e a percepção sobre a doença.

O objetivo é mostrar a importância da prevenção, da realização do teste e do tratamento imediato contra o HIV, assim que o vírus for detectado.

http://agenciaaids.com.br/noticia/aids-retrocessos-inaceitaveis/

Documentário ‘Carta para Além dos Muros’ aborda o estigma sobre HIV no Brasil

Um apanhado de três décadas de história do HIV e da AIDS no Brasil estará nos cinemas de todas as capitais do país…nacoesunidas.org

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