Você é o que você consome? - VIDAVEDA

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23/06/2020
Você é o que você consome?

Como enxergar nosso papel de consumidor em relação ao meio ambiente

Por Alice Azara, estagiária de escrita do Vida Veda

Na última semana, as Nações Unidas e a Organização Mundial de Saúde informaram que o surgimento de pandemias, tais como a que estamos enfrentando atualmente, é resultado da nossa exploração da natureza. 

Já no mês passado, um relatório emitido pela União Europeia preocupou o mundo ao confirmar um aumento de 10°C na temperatura da Sibéria em maio, trazendo à tona o impacto do aquecimento global. 

Em meio a tantas notícias que nos mostram a urgência de mudarmos nossa relação com o meio ambiente, esse mês da ecologia nos pede que pensemos: onde estamos errando e como podemos mudar antes que seja tarde demais?

O consumismo não é um tema explorado nos textos ayurvédicos e os desdobramentos éticos e morais do consumo também não são citados nos Samhitas. De acordo com o vaidya Matheus Macêdo, isso se dá principalmente pelo contexto de escrita dos textos: o Samhita mais recente tem aproximadamente mil e quinhentos anos e a sociedade na qual o Ayurveda surgiu é totalmente diferente desta em que vivemos hoje. 

Entretanto, pensar a cadeia de consumo é importante para entendermos nossa saúde como indivíduos e a saúde do mundo em que vivemos. Afinal, consumimos e desperdiçamos como nunca antes na história da humanidade.

O primeiro aspecto importante do consumismo é pensar em como ele nos afeta como indivíduos. As propagandas nos dizem frequentemente que precisamos comprar um novo celular, mudar de carro, adquirir mais roupas e que todos os produtos que temos não servem para mais nada. Tudo se torna obsoleto muito rapidamente, inclusive nós mesmos. 

Para o filósofo e sociólogo Zigmunt Bauman, no livro Vida para consumo, o que acontece na sociedade de consumo é que passamos a construir nossa identidade a partir da nossa lista de compras. A nossa verdade interior se materializa através das nossas escolhas de compra e não mais das nossas ações, pensamentos e falas. Nessa sociedade, é raro pararmos para nos auto-observar e perceber quem somos — tal como o Ayurveda defende — mas, ao contrário, damos voltas à procura do produto mais atualizado tentando evitar que nós mesmos nos tornemos obsoletos num mundo de aparências.

Outra esfera impactada pela mentalidade consumista da nossa sociedade é a coletividade. De acordo com Eduardo Massayuki, jardineiro agroecológico e educador socioambiental, o sistema em que vivemos nos faz perder o senso de comunidade, criando a percepção egocêntrica de que sempre precisamos ganhar mais, competir mais e fazer o melhor para nós mesmos. Porém se quisermos construir um mundo melhor, no qual respeitamos a natureza e o meio em que vivemos, precisamos começar a pensar em como atingimos o mundo ao nosso redor.

Mas, então, por onde começar? Assumir uma perspectiva minimalista do consumo pode ser um bom começo! Para Matheus, o minimalismo é uma tentativa de diminuir ao máximo o impacto no meio ambiente e, a partir de uma reflexão individual, entender o que é absolutamente essencial. 

“Minimalismo não é a perfeição, é uma tentativa de ficar melhor todo dia. É tentar entender o que é o mínimo de que eu preciso e quero pra viver uma vida feliz e saudável, tentando controlar os impulsos e pressões de consumismo — essa sensação de que somos o que temos e que precisamos ter um monte de coisas.”, explica o vaidya.

Então, o ato de mudar nosso consumo individual já seria capaz de reverter todos os problemas ambientais? Infelizmente não. Por mais que muitas vezes o discurso da ecologia coloque a responsabilidade dos problemas ambientais nos indivíduos, nosso impacto como consumidores diretos é muito inferior se comparado aos grandes poluidores do planeta. 

Crédito Freepik

Um exemplo disso são as taxas mundiais de consumo da água potável: enquanto consumimos diretamente apenas 3,6% da água potável (para cozinhar, limpar e beber), a agropecuária é responsável pelo gasto de 92% da água do planeta. Mesmo se diminuirmos nosso tempo no banho ou fecharmos a torneira enquanto escovamos os dentes, o impacto das indústrias ainda será significativo na destruição da natureza.

Você pode estar pensando que o objetivo deste texto é dizer que nós, como indivíduos, não podemos mais mudar a nossa relação com a natureza. Fique tranquilo, não é essa a mensagem! Temos sim a capacidade de mudar, mas temos que estar cientes de que “Uma mudança pessoal não equivale a uma mudança social” (ideia contida no documentário — Forget Shorter Showers — que aborda a relação da indústria x pessoal).

Adotar uma perspectiva de consumo consciente — se preocupando em saber de onde vem o produto que você consome, como ele impacta o mundo e quem ele envolve na cadeia de produção — é uma forma de trabalharmos coletivamente para a mudança de mentalidade sobre como consumimos na nossa sociedade. 

É se tornar uma pessoa que se preocupa com as consequências das suas decisões (se você tem o privilégio de poder escolher o que consome), e não uma pessoa que se preocupa apenas com o que possui.

Muitas vezes optamos por certas ações que visam a diminuir o consumo e cortar gastos. No entanto, nossa abordagem quanto à ecologia ainda permanece muito próxima da passividade. E, no estágio de destruição que enfrentamos no momento, precisamos sobretudo adotar uma abordagem ativa sobre essas questões: construir hortas urbanas, começar a fazer compostagem, instruir as pessoas próximas sobre a importância de mudarmos nossa mentalidade de consumo

Dessa forma, poderemos coletivamente pressionar os maiores poluidores a mudarem suas estratégias e, assim, construir um mundo que não se preocupe apenas com o consumo consciente mas também com um processo de produção mais ético além de ecológico.

Revisão: Elisabete de Carvalho Sposito



Comentários

  1. Thais Vilanova disse:

    adorei o texto!

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