Solidariedade e informação: coronavírus e as periferias - VIDAVEDA

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31/03/2020
Solidariedade e informação: coronavírus e as periferias

Para enfrentar COVID-19, moradores da Favela da Maré no Rio de Janeiro fazem campanha para difundir informações de prevenção e cuidados com a saúde.

Por Anelize Moreira, gerente de escrita, com a colaboração de Alice Azara

Terça-feira, 24 de março, três da tarde, telefone toca: “Filha, prenderam três pessoas aqui e a PM fechou a rua de casa. Hoje está difícil me acalmar, minha pressão subiu. Cada um que passa conta que os hospitais da região estão cheios e não tem leito suficiente pra todo mundo.”

O meu medo morando em um bairro de classe média da zona leste de São Paulo é diferente do medo do meu pai, que aos 73 anos, com doenças cardiovasculares e diabetes, mora em um bairro periférico na mesma região da cidade. São Paulo é o epicentro da pandemia no Brasil, com maior número de casos confirmados do COVID-19.

Peço a ele pra não sair de casa. Ele diz que vai ficar, mas que o dinheiro está curto, não está conseguindo trabalhar e não sabe o que fazer. Ele conta que tem muita gente ainda na rua e que o isolamento não faz parte completamente do cotidiano do bairro. E garante que os vizinhos têm se apoiado e se unido nesse período para cuidar uns dos outros.

Os moradores das periferias enfrentam inúmeras dificuldades pra conseguir seguir as orientações vigentes e se protegerem do COVID-19: falta de saneamento básico, custo dos produtos de higiene, a impossibilidade de parar de trabalhar, preocupações com a sobrevivência, além daquelas enfrentadas cotidianamente, como falta de segurança e recursos.

No Rio de Janeiro, por exemplo, com o crescimento do coronavírus, moradores, ativistas, profissionais da saúde e comunicadores comunitários têm se mobilizado, realizando ações de enfrentamento à doença no Complexo de Favelas da Maré, zona norte do Rio de Janeiro.

A Maré possui um conjunto de 16 favelas e aproximadamente 132 mil moradores. Comunicadores comunitários que já fazem o trabalho de mais de 20 anos na favela organizaram uma campanha contra a pandemia. Nessa campanha, uma das preocupações é atingir os diferentes públicos da favela, pois muitos moradores não têm acesso a internet e não sabem ler e escrever.

“Começamos a fazer uma campanha com carro de som que passa pelas ruas com as orientações produzidas pelos profissionais de saúde da favela, desde recomendações de prevenção até sobre quando procurar um médico”, explica Gizele Martins, moradora e comunicadora da Favela da Maré.

Além disso, essas recomendações estão sendo distribuídas nas rádios postes e comunitárias, em comércios, bares e também em redes sociais, como Whatsapp e Instagram.

“Buscamos uma linguagem de solidariedade e acessível. A favela sofre com a falta de água, então como lavar as mãos de duas em duas horas? Orientamos: Se você tem água doe para o seu vizinho. E também precisamos cobrar do poder público pra que garanta água, energia, saneamento e queremos que os trabalhadores informais tenham acesso a benefícios e alimentação. Se é preciso ficar em quarentena é importante que o governo garanta os direitos básicos de trabalhadores como faxineiras, empregadas domésticas, porteiro, mototáxi, motoristas de aplicativos e comerciantes, para que consigam seguir a quarentena”, afirma Gizele.

O Grupo de Trabalho de Saúde da População Negra da Sociedade Brasileira de Medicina de Família e Comunidade, e a Associação de Medicina de Família e Comunidade do Rio de Janeiro lançaram um guia com orientações de prevenção do COVID -19 para a população das periferias.

O material traz dicas viáveis de como se proteger, desde lavar as mãos, higienizar a casa e entreter as crianças na fase de quarentena, de acordo com os recursos disponíveis e a realidade vivida pelas pessoas que sobrevivem às condições de vulnerabilidade.

Comunicadores da Favela da Maré

É na periferia que se concentram os trabalhadores que nem sempre podem atender ao chamado do “fique em casa”. Destacamos algumas orientações do guia que podem auxiliar nesse momento:

AOS QUE SEGUIRÃO TRABALHANDO DEVIDO A FRAGILIDADE DE VÍNCULO EMPREGATÍCIO OU POR NECESSIDADE:

1. Preciso usar transporte público. Como posso me proteger?

  • Se possível, evite horários de pico, quando o transporte público fica mais cheio
  • Evite colocar as mãos nas barras de apoio
  • Quando sair do transporte público, procure um lugar para lavar as mãos e sempre evite tocar o rosto enquanto não puder limpá-las.
  • Se o transporte tiver janelas, sempre mantenha abertas.

2. Preciso circular na rua. O que devo fazer?

  • Evite contato físico com outras pessoas
  • Lembre de manter distância de pelo menos 1 metro da pessoa, inclusive quando for se comunicar
  • Ao voltar para casa, evite tocar em qualquer coisa antes de lavar as mãos e retirar as roupas usadas. Não misture a roupa usada com as roupas limpas e não deixe a roupa suja em locais de uso comum na casa

3. Círculo de mototáxi. O que devo fazer para me proteger?

  • Para circular de mototáxi é essencial usar o capacete
  • A cada troca de passageiro deve-se desinfetar o capacete com álcool líquido de concentrações de no mínimo 60% ou outro material desinfetante que não danifique o capacete.

LIMPEZA DAS MÃOS 

1. Como lavar as mãos?

  • Usar água e sabão, sabonete, xampu ou detergente
  • Esfregue toda as mãos, punho, unhas e espaço entre os dedos por, no mínimo, 20 segundos
  • Não tem água? Álcool gel funciona do mesmo jeito!
  • Não tem água nem álcool gel? Use álcool 70% líquido ou evite contato com olhos, boca e nariz até poder lavar as mãos

2. ATENÇÃO:

  • Não é preciso fazer as duas coisas. Se lavar as mãos, não precisa de álcool em gel. Se passou álcool em gel, pode não lavar as mãos.
  • Lavar as mãos com água e sabão é melhor do que usar álcool gel 70%.
  • Vinagre, coca-cola, água sanitária, gasolina e álcool gel caseiro não resolvem, podem causar danos na pele e são perigosos!

3. Quando lavar as mãos?

  • Lave sempre que possível, mas se não tiver água, lave principalmente:
  • Quando chegar em casa, vindo da rua
  • Depois de tocar em outras pessoas que vieram da rua
  • Quando tossir ou espirrar
  • Antes e depois de cozinhar
  • Antes das refeições
  • Depois de tocar em animais domésticas ou limpar o cocô
  • Depois de ir ao banheiro
  • Se as mãos estiverem sujas
  • Quando estiver cuidando de pessoas com quadro suspeito ou confirmado de Coronavírus
  • Quando encostar em lugares que têm mais chances de estarem contaminados: controle remoto, celular, maçaneta, interruptor, computador, dinheiro, moeda, etc.
Comunicadores da Favela da Maré

OUTRAS FORMAS DE PROTEÇÃO

1. Além de lavar as mãos, é muito importante:

  • Cobrir a boca e o nariz com o cotovelo ou papel higiênico quando tossir e/ou espirrar.
  • Ficar atento para tentar não tocar o próprio rosto (principalmente olhos, nariz e boca)
  • Ter o mínimo de contato possível com pessoas que estão doentes
  • Não dar abraço, aperto de mão, “dois beijinhos” e outras formas íntimas de se cumprimentar
  • Evitar, o máximo que puder, lugares com muita gente, principalmente se forem fechados, com pouca ventilação

MÁSCARA DE PROTEÇÃO

1. Não estou doente, preciso usar?

  • Não. Para as pessoas que não estão com coronavírus nem com suspeita, usar a máscara não é recomendado e é um gasto desnecessário. O material é desperdiçado e ainda pode faltar para quando é mesmo necessário.

2. Convivo com uma pessoa que está doente, ela precisa usar máscara?

  • O ideal é que a pessoa doente fique sozinha em um cômodo da casa, sem máscara. Quando ele sair para ir na cozinha, no banheiro ou outro lugar de casa, deve ficar de máscara o tempo todo.
  • Quando a pessoa com suspeita ou confirmada de coronavírus consegue ficar isolado em um cômodo, quem for cuidar dele deve colocar a máscara antes de entrar nesse cômodo e usar o todo o tempo que ficar lá.

3. Convivo com uma pessoa doente e minha casa só tem um cômodo, o que fazer?

  • Quando a casa tiver só um cômodo, a pessoa doente deve ficar de máscara todo o tempo, para proteger os outros moradores da casa.

Os comunicadores comunitários da Maré estão fazendo uma vaquinha virtual pra continuar disseminando as informações nos próximos meses.

Revisão de: Rafael Sposito



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