Silêncio é presença - VIDAVEDA

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09/06/2020
Silêncio é presença

Se conectar com você mesma pode auxiliar a lidar com as incertezas e adversidades da vida

Por Alice Azara, estagiária de escrita do Vida Veda

Dentre os 4 Pilares da Saúde, o do Silêncio é o menos óbvio ao falarmos de práticas essenciais para uma vida saudável e também o mais difícil de expressar em palavras. Como bem pontuado pelo Vd. Matheus Macêdo, explicar o que é e como praticar o Silêncio é como tentar descrever o cheiro de uma flor, esperando dar conta da realidade usando apenas a linguagem.

Para o Caraka Samhita, no Sharira Sthana, capítulos 1 e 3, a origem para o sofrimento do corpo e da mente pode estar ligada a noções equivocadas dos limites entre o corpo, a mente e a realidade. Esta percepção do Eu verdadeiro, também chamado de Atma ou Avyakta (aquilo que não pode ser compreendido), pode ser deturpada nas duas concepções distintas: quando acreditamos que o Eu é o corpo físico ou que o Eu é a mente. A partir do momento em que estabelecemos essas conexões equivocadas, quando o corpo ou a mente oscilam, oscilamos junto.

Por mais subjetivos que sejam os conhecimentos trazidos pelo Caraka Samhita, o caminho para evitar essa desconexão e perceber a realidade do Eu é bastante simples e intrínseco ao ser humano: o Silêncio. De acordo com o vaidya, o Silêncio não é uma ação que você deve praticar na sua vida, ele é o estado natural do ser humano. 

O Silêncio é aquilo que acontece quando nada mais acontece. Desta forma, “a meditação pode ser um instrumento de compreensão da realidade, de compreensão do que é exatamente o corpo físico, do que é exatamente o corpo mental e do que é você, que é aquele que observa o funcionamento do corpo físico sem ser o físico e observa o funcionamento do mental sem ser o mental”, explica Matheus.

Mas, então, meditar é fazer silêncio? Nem sempre. Ainda de acordo com o vaidya, uma prática de meditação pode ser indicada para quem quer melhorar o pilar do Silêncio e nem sabe por onde começar. Ao fazer uma meditação guiada, por exemplo, já se tira um momento do dia para se ancorar no presente e prestar atenção nas oscilações da mente, por mais que o barulho não classifique Silêncio em si. “O Silêncio não é uma prática, é quando você pára todas as práticas. Mas, no início, às vezes faz sentido a pessoa começar ‘praticando’”, esclarece o vaidya.

Para Carla Lino, economista, diretora financeira do Vida Veda, professora do curso Transforme Sua Saúde e mãe da Manu de onze meses, a maternidade e a atual quarentena trouxeram desafios ao pilar do Silêncio. “A quarentena me fez repensar essa necessidade que eu tinha de voltar para esse lugar de conexão comigo mesma, para essa sensação de mim, de aconchego, que a meditação me traz. Eu fiz o curso de meditação Vipassana e consegui encontrar esse lugar. Mas quando eu engravidei, mais ou menos na metade da gestação, começou a ficar um pouco mais complicado e a quarentena trouxe várias coisas à tona…”, conta.

Carla e Manu/ Créditos: Arquivo pessoal/ Carla Lino

Carlinha, como é chamada pela equipe, percebeu que encontrar o momento ideal para ficar sozinha e se entregar ao Silêncio é um desafio em meio às tarefas de casa, ao trabalho e aos cuidados com a filha. A saída que encontrou foi colocar em prática a técnica que aprendeu com Renata Mendes, também professora do curso TSS. “Eu consegui introduzir a prática de meditar na ação. Eu tô tomando um banho e consigo fazer uma meditação, tô cozinhando, tô amamentando a Manu e consigo meditar, e antes de dormir aí que eu faço a minha prática de sentar, de fazer uma entrega maior”.

Encontrar momentos de entrega ao Silêncio em meio à rotina atribulada, ao estresse do dia a dia e ao barulho exterior é realmente complicado… Mas a meditação nos ajuda a colocar os problemas em perspectiva e a saber lidar melhor com as mais diversas situações. 

“Depois que eu voltei do Vipassana, todo mundo falou que até meu semblante mudou!”, conta Carlinha. “Minha principal mudança foi como eu encarava as situações da vida… geralmente eu era muito reativa, não de brigas, mas logo quando tinha uma ação, eu tinha uma reação. O pilar do Silêncio me ajudou em todos os sentidos da minha vida, inclusive no processo de parto, de gestação, de aceitar mais as coisas como elas são e deixar fluírem.”

Créditos: Arquivo pessoal/ Carla Lino

Agora você pode estar se perguntando se precisa começar a meditar enquanto cozinha, se precisa baixar um dos diversos aplicativos de meditação guiada ou se apenas sentar num lugar quieto e tranquilo já basta para um pilar do Silêncio saudável. A resposta é: não existe uma única prática certa! Busque a melhor forma de criar um momento de observação e acolhimento de si. “Você é silêncio. Você está fazendo silêncio agora.”, explica Matheus. 

“Quando eu falo ‘faça silêncio’, na verdade eu quero dizer ‘honre o silêncio que você já é’. Ele nem é seu silêncio; se você fosse uma rosa seu cheiro seria o silêncio. É uma coisa que está sempre ali, que você não controla, você não pode acabar com ele, você só pode colocar camadas em cima dele.”, diz Matheus. 

Um segundo passo para encontrar esse lugar de contemplação da realidade é, de acordo com Carla, praticar. É importante que se torne um hábito no seu dia tirar pelo menos alguns minutos para silenciar, respirar profundamente, perceber como está seu corpo, sua mente e o que está acontecendo ao seu redor no momento presente. O terceiro passo citado por Carla é aceitar as adversidades, pois nem sempre você irá experimentar seu silêncio com facilidade. 

“Tem dias que a mente está mais agitada e o processo meditativo é mais difícil. E é assim com todo mundo! Você só está sendo um ser humano. Fique ali, observe a mente sem julgamentos. E se você sentou e não conseguiu meditar nem um minuto, tudo bem!”, ressalta Carlinha.

De acordo com o Vd. Matheus, aprender a lidar com as dificuldades do processo — como a mente agitada e os sons externos — é parte importante do pilar. “Se um barulho te distrai, isso também é um jeito de você aprender. Alguma hora você vai aprender a honrar o Silêncio e aí o barulho da rua não atrapalha mais, e o aplicativo de meditação é desnecessário”, conta.

Em tempos como esse, quando o futuro aparece como um horizonte incerto, é difícil conseguirmos manter nossa mente ancorada no presente e observarmos nossa realidade sem culpa, estresses e julgamentos. Entretanto, quando lembramos que o passado se foi, o futuro é um espaço de tempo que ainda não existe e que o presente é a única verdade que temos, o pilar do Silêncio surge como um alerta, um alento e um apoio para encontrarmos nós mesmos em meio às oscilações do mundo.



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