PRECISO PARAR DE COMER CARNE? - VIDAVEDA

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12/11/2019
PRECISO PARAR DE COMER CARNE?

Uma elucidação sobre o consumo de carne de acordo com os textos clássicos do Ayurveda por Matheus Macêdo e Jaqueline Halack.

Hoje estamos aqui para discutir a questão: Para seguir a Ayurveda, eu preciso parar de comer carne? O Ayurveda é uma medicina vegana ou vegetariana?
Já discutimos isso amplamente nas nossas mídias sociais mas resolvemos fazer esse artigo para deixar aqui mais algumas contribuições.
É importante voltar nessa questão porque as pessoas se confundem bastante sobre o consumo de carne e Ayurveda. Para a gente deixar claro, nos textos clássicos ayurvédicos, como os Samhitas e os Nigantus, no Caraka Samhita, no Sushruta, no Astanga Hrdrayam, em todos os textos, a utilização de carne, de todos os tipos de carne, é onipresente. Em todos os textos você pode ver recomendações explícitas para a utilização de diversas carnes. Não só a carne de porco como todas as carnes de caça. Além disso, diversos tipos de pássaros e aves e diversos tipos de mamíferos. Está tudo lá. Existem recomendações e utilizações específicas de diferentes carnes, tanto para consumo no cotidiano quanto para o consumo específico para tratamento de doenças. Mas então, porque motivo as pessoas confundem Ayurveda com vegetarianismo?
São dois motivos principais.

O primeiro, o motivo histórico-cultural. Hoje a Índia é um país de predominância hindu. A prática cotidiana de Ayurveda acaba levando bastante das influências culturais do hinduísmo. O que significa que, como a cultura hindu é uma cultura que evita o consumo de carne de vaca, então, na prática médica de Ayurveda na Índia, a carne acaba não sendo nem indicada e nem utilizada. Talvez esse elemento cultural explique um pouco esta correlação.

O segundo elemento é que o Ayurveda é uma ciência observacional. Tudo é narrado nos textos clássicos, de carne de vaca à sêmen de crocodilo. Imagine! Existem descrições sobre as funções terapêuticas do uso de sêmen de crocodilo! Todos os elementos da natureza que estavam presentes na época em que os Samhitas e os Nigantus foram escritos são descritos. Como o Ayurveda procura descrever esses elementos, ele acaba narrando como eles podem ser usados, além dos pontos positivos e negativos. Isso é feito quase que de uma forma neutra. No entanto, olhando no Astanga Hrdrayam, capítulo 2, que fala de dinacharya, ou seja, das práticas que todo mundo deveria seguir cotidianamente, metade dele fala de práticas éticas e morais. Fala-se de comportamentos que as pessoas deveriam ter para um bom convívio em sociedade, para se realizar como ser humano, para ser feliz no planeta, e uma das observações que o Vagbhata coloca é que o ser humano deveria respeitar todos os animais, do menor até o maior. Sugere não só respeito, mas a boa convivência com esses animais. A maneira como estamos atualmente lidando com os animais e outros seres vivos muitas vezes fica bem distante desse respeito e harmonia que os clássicos sugerem.
Então, olhando para o método atual de produção de carne, seja bovina, suína, de aves ou quaisquer outras, pode-se infelizmente perceber a inclusão de violência e
desrespeito no trato com o animal. De certa forma, a produção moderna acaba se distanciando de como os Samhitas clássicos da ayurveda acham que nós deveríamos nos relacionar com eles. Outro ponto que deveríamos levar em consideração é que dentro do conceito ayurvédico, as carnes mais recomendadas para consumo são as carnes de caça, de animais selvagens e, hoje em dia, a maioria de nós quase nunca consome carne de caça, mas sim carnes mais domesticadas como a de boi, vaca e frango. Essas carnes estão bem distantes também do que os clássicos recomendam para consumo cotidiano.

Ainda mais complexo do que isso é o fato de que os Samhitas categorizam os animais de acordo com seu alimento natural. Para dar um exemplo para vocês, o frango é um animal considerado um ciscador – isso significa que o frango cata a comida dele do chão. Se você alimenta um animal de maneira diferente da sua forma natural, de acordo com os Samhitas, esse animal não é próprio para consumo.

Então, se um frango é ciscador, ele deveria catar alimentos que estão no chão. Porém, como sabemos, muitos frangos são alimentados com ração, tornando-os, de acordo com os Samhitas, impróprio para consumo, independentemente de ser orgânico ou criado solto. Se ele não está se alimentando originalmente da maneira que nasceu para comer, ele já é considerado impróprio para consumo. A mesma lógica se aplica aos bovinos. A vaca é um animal ruminante. Ou seja, deveria pastar e comer grama livremente. Se você come uma carne de vaca que é alimentada de ração, de milho ou de soja por exemplo, que são os alimentos mais comuns no que se diz respeito a alimentação de gado bovino, você também estará ingerindo um alimento que, de acordo com os Samhitas, é impróprio para o consumo.
Com isso, conseguimos entender que o Ayurveda não é contra o consumo de carne. O que se tem é uma preocupação com a qualidade dos alimentos que se consome. E as carnes de hoje em dia, por exemplo, estão muito aquém do padrão de qualidade que os Samhitas estabelecem. Por isso que a gente acaba se aproximando mais de uma dieta vegetariana. Então, o Ayurveda não é uma ciência vegetariana mas se você aplicar ao mundo moderno o padrão de qualidade que a gente espera das carnes, você acaba se distanciando bastante desse consumo.
Espero que esse artigo tenha esclarecido um pouco sobre a relação do Ayurveda com o consumo de carnes. Tentamos dar algumas noções aqui para vocês, mas a gente ainda vai escrever bastante e entrar mais em detalhes em artigos futuros.


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