Ponto de Ebulição - VIDAVEDA

Blog

14/07/2020
Ponto de Ebulição

A partir de quando a aceleração deixa de ser saudável e começa a adoecer o corpo e a mente?

Por Alice Azara e Anelize Moreira, da equipe de Escrita 

Créditos: Foad Roshan /Unsplash

A porta se abria e com ela vinham as novidades. Sempre que chegava na casa da Fernanda*, ela me mostrava um caderno de desenho, um livro, um quadro da Mulher Maravilha, uma boneca nova… Desta vez, ela me levou até a cozinha. Abriu a gaveta e disse: “Quando não aguento de ansiedade, eu tomo esse remédio, mas às vezes sinto que piora”. Fernanda tem 11 anos, mora em uma cidade pequena no interior de Minas Gerais. Fiquei intrigada: como aquela menina cheia de energia podia viver, já na infância, uma ansiedade que ela mesma classificou como insuportável?

Essa história fez a gente lembrar o documentário Tarja Branca. O longa é um verdadeiro manifesto às brincadeiras infantis e ao universo lúdico como forma de socializarmos, manifestarmos nossas emoções e, principalmente, sobre o impacto do brincar na vida adulta.

Apesar de Fernanda viver em uma cidade sem tanta aceleração, o ritmo interno seguia acelerado. Durante a pandemia, ela deixou de ir à escola, encontrar com os amigos e seu modo de ter contato com o mundo passou a ser por meio das telas: do computador, da TV e do celular. Ela apenas absorvia o ritmo de uma aceleração social constante, um sentido de urgência que vem ao longo dos anos se naturalizando, e para algumas pessoas teve seu estopim agora com o confinamento.

“As tecnologias são muito acelerantes. Acredito que a comunicação é estabelecida somente com diálogo e, quando você não reverbera, não ressoa com outras pessoas, a gente não está se comunicando. O que a gente vive hoje é um excesso de expressividade, mas sem se comunicar”, explica Michelle Prazeres, educadora, pesquisadora e idealizadora do Desacelera SP.

Esse texto não é um manifesto contra os aparelhos eletrônicos ou contra a medicalização quando necessária, porém gostaríamos de convidá-lo(a) a refletir sobre essa aceleração que virou parte do nosso funcionamento diário. Afinal, estamos correndo para onde e para quê?

Créditos: Fabrizio Verrecchia/ Unsplash

“O estresse é uma ferramenta de seleção natural fenomenal.”, afirma o vaidya Matheus Macêdo. De fato, se ainda habitamos a Terra como seres humanos é por conta de respostas corporais como o estresse que permitiram aos nossos antepassados estarem alertas a perigos. Entretanto, ainda de acordo com Matheus, na atualidade o estresse ficou perverso e a resposta do nosso corpo a eventuais ameaças da natureza se tornou um veneno que nos adoece a cada dia.

Em meio a esse turbilhão de informações, opções e demandas em que vivemos, surgiram propostas como o Movimento Slow para nos lembrar de que não é natural vivermos num ritmo tão acelerado. O que hoje é conhecido como um movimento que abarca diversas áreas da vida, na realidade surgiu na Itália, em 1986, como uma mobilização pela defesa da alimentação regional, do prazer gastronômico e por um ritmo de consumo mais lento. Com o passar do tempo, a proposta do então Slow Food se expandiu para outras áreas: o trabalho, o consumo, a rotina.

Mas o Movimento Slow não propõe uma vida lenta ou o puro ócio. De acordo com Michelle, a proposta é recobrar os sentidos, a humanidade e estar presente no aqui e agora. E é claro que, na sociedade em que vivemos hoje, nem todos têm a escolha de simplesmente desacelerar todas as áreas da vida. Muitas pessoas, por mais estressante que seja o dia a dia, precisam manter a rotina corrida, as altas cargas de trabalho e não têm o privilégio de poder escolher ter a vida tranquila com que tanto sonham.

Créditos: Ksenia Makagonova / Unsplash

A busca incessante por uma vida menos agitada também é a fonte de estresse. Ao mesmo tempo que o mundo exige que sejamos produtivos e ágeis o tempo todo, também demanda estarmos serenos e alinhados rapidamente. Dessa forma, o desacelerar se torna mais uma obrigação estressante, mais uma tarefa a ser incluída na rotina atribulada.

A verdade é que o desacelerar da vida não é para todos, não é um processo rápido e não existe uma receita de como você deve passar por esse processo. Isso porque nem todos precisam desacelerar. “O desacelerar, se for uma fórmula, ele é o anti-slow.”, explica Michelle. 

“O desacelerar vem de dentro, ele é de cada um, de cada uma. Se não estiver te incomodando, é melhor você continuar correndo.”

Da mesma forma, o processo de desacelerar não deve se tornar mais uma pendência para você riscar da sua lista de tarefas, mais uma corrida em busca do progresso. “Todos hoje em dia querem desacelerar, mas querem aprender como desacelerar de forma rápida.”, afirma Carl Honoré, jornalista e grande difusor do Movimento Slow.

É evidente que nem toda escolha de desacelerar é possível e, como escolha individual, ainda não é viável para muitas pessoas. Entretanto, podemos começar a diminuir o ritmo aos poucos, a perceber melhor como escolhemos gerenciar nosso tempo e atenção e, ao que estamos dedicando nossa inquietação no dia a dia.

O Ayurveda defende que uma boa saúde só é alcançada quando aprendemos a seguir nossos ritmos internos e os ritmos externos da natureza. E é somente com mais consciência, presença e silêncio que cada um consegue desvendar qual é seu ponto de ebulição, a partir de quando a aceleração deixa de ser saudável e começa a adoecer o corpo e a mente. Carlo Petrini, fundador do Slow Food, estava certo ao afirmar que “É inútil forçar os ritmos da vida. A arte de viver consiste em aprender a dar o devido tempo às coisas.”

  • Nome fictício para preservar a identidade da criança


Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

  • Copyright 2019 - Todos os direitos reservados a Vida Veda