O que é discernimento? - VIDAVEDA

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04/08/2020
O que é discernimento?

Dhi: como uma das terapias da mente do Ayurveda pode nos ajudar a ter uma vida mais equilibrada

Por Alice Azara, da equipe de Escrita do Vida Veda

“Todas as três principais terapias para a mente passam muito pelo Pilar do Silêncio.”, afirma o vaidya Matheus Macêdo. É comum prestarmos atenção às famosas terapias ayurvédicas que se preocupam com o tratamento de doenças do corpo e de desequilíbrios dos doshas vatta, kapha e pitta, mas é raro falarmos dos doshas da mente e, principalmente, dos tratamentos prescritos pelos Samhitas para os desequilíbrios possíveis nesses doshas.

Primeiramente, de acordo com o Ayurveda, existem dois doshas da mente: rajas e tamas. Em caso de desequilíbrios e agravamentos nestes dois doshas, o livro Ashtanga Hrdayam, no Sutrasthana 1:26, recomenda três principais tratamentos: dhi, dhairya e atma divijnanam

“Esse sloka é tão interessante quanto mal compreendido. [O tratamento de doenças mentais] é um dos conceitos basilares do conhecimento da fisiologia e do tratamento ayurvédicos e as pessoas muitas vezes se confundem, não sabem como aplicar isso ou não sabem entender.”, comenta Matheus.

Nos próximos textos trabalharemos cada um desses tratamentos, entendendo o que são e como são colocados em prática. Neste texto, falaremos um pouco mais sobre o primeiro deles: dhi, também conhecido como “discernimento”.

De acordo com o vaidya, o discernimento é a primeira e mais importante terapia mental, pois é apenas a partir dele que a pessoa será capaz de compreender o que é ou não é importante em sua vida; o que é saudável e o que não lhe faz bem e o que é verdadeiro e o que é de mentira.

“Literalmente, a palavra dhi é traduzida como ‘inteligência’, como ‘compreensão’. Você também encontra em alguns dicionários a tradução como ‘devoção’, ‘prece’ ou ‘meditação’.” 

Matheus também explica que se a pessoa está com problemas de desequilíbrio de rajas e tamas, umas das maneiras de equilibrar esses doshas é através da compreensão: “Talvez esses doshas estejam desequilibrados porque a pessoa está com dificuldades de compreender a realidade de forma apropriada ou de forma objetiva. Então, através de uma melhor compreensão da realidade, os doshas vão se acalmar.”

Créditos: Caleb Jones

Entendemos até agora como isso se dá no que diz respeito aos doshas, mas de forma mais prática, como isso ocorre no nosso dia a dia? Imagine que você passou por um dia estressante no trabalho e, mesmo após tudo ser resolvido, o estresse permanece. E, no dia seguinte, aquele evento estressante continua a incomodá-la, aquela tensão permanece no fundo da sua mente.

O discernimento serve, nesse caso, como uma ferramenta para medir o que de fato é importante e o que deve ser deixado para trás. A compreensão da realidade nos ajuda a questionar: esse evento foi realmente tão importante assim? O impacto que ele teve na minha vida é tão grande ou estou aumentando a relevância dessa questão e me apegando a algo que eu devia só deixar passar?

Essa prática diária de dhi é essencial para conseguirmos evitar o acúmulo de estresse em nosso corpo e mente que, como vimos no texto anterior, poderá causar desequilíbrios e doenças em nosso sistema ao longo do tempo. 

Para o Vd. Matheus, implementar o discernimento em nosso dia a dia é como decidir entre talhar uma pedra ou deixar uma marca na areia: “Quantos eventos que acontecem na nossa vida que a gente vai marcando todo dia na pedra? E tirar marca de pedra é um horror. Se todo dia você consegue passar seu dia e consegue desobstruir o estresse físico e zerar o estresse mental, você fez uma marca na areia. A primeira onda que passar, já não tem mais marca nenhuma.”, conta o vaidya. 

“A diferença da marca que você faz na areia, que é leve, e a marca que você faz na pedra, que é profunda, é o discernimento.”

Créditos: Jon Tyson

Da mesma forma, o discernimento pode ser usado para encontrar a solução ou a raiz de problemas que enfrentamos na nossa rotina. E é dessa maneira, principalmente, que a terapia de dhi é aplicada na prática clínica dos médicos ayurvédicos. Matheus explica ainda que, diversamente do que possamos imaginar, a terapia de dhi não é um remédio a ser prescrito, mas uma prática muitas vezes aplicada no diálogo entre médico/terapeuta e paciente: “Eu vejo que a pessoa está cometendo um erro de discernimento e eu tento iluminar pedagogicamente qual é o erro. E aí, muitas vezes com a minha analogia ou com a explicação, a pessoa entende que o que ela está fazendo não faz sentido.”

Mesmo por meio de uma conversa, a chave para o discernimento continua sendo a boa e velha auto-observação. E, no campo individual, o Pilar do Silêncio é o melhor mecanismo para encontrarmos esse lugar de conexão com a realidade, de compreender nossos valores, de ponderar sobre a importância de cada coisa em nossas vidas e definir o que de fato deve ser carregado com zelo e o que devemos simplesmente deixar ir.

Revisão: Elisabete de Carvalho Sposito



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