Fazendo as pazes com estresse - VIDAVEDA

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21/07/2020
Fazendo as pazes com estresse

O estresse pode ser positivo, mas até certo ponto.

Por Alice Azara da equipe de Escrita do Vida Veda

Em 1908, dois psicólogos conduziram uma pesquisa que demonstrou dados interessantes sobre a relação entre desempenho e excitação. O experimento, feito por Robert Yerkes e John Dillingham Dodson, utilizando ratos, em um labirinto, que recebiam choques a certos estímulos, demonstrou que o estresse e a ansiedade podem ser bastante benéficos aos nossos níveis de produtividade, mas só até certo ponto. 

Mais de cem anos se passaram desde a descoberta da chamada Lei de Yerkes-Dodson e diversas outras pesquisas avançaram nos estudos sobre os efeitos do estresse, mas continuamos a repetir o erro de acharmos que quanto mais estressados estamos, mais produtivos seremos no dia a dia.

Estamos todos estressados e já é natural reclamarmos do quanto nossa rotina nos deixa ansiosos, cansados e tensos. Entretanto, sabemos mesmo o que é o estresse? Esse termo tão comum e usual foi cunhado já em 1936 pelo endocrinologista Hans Selye, definindo o estresse como um elemento inerente a toda doença.

“Ele observou as pessoas doentes e percebeu que o estresse produz modificações na estrutura e na composição química do corpo.”, explica o psicólogo e criador da Terapia Integrativa, Ilan Segre. “Hoje em dia o que a gente percebe clinicamente no consultório é que as pessoas trazem isso na forma de sintomas e quando elas perceberam alterações fisiológicas. Seja nos ritmos circadianos, insônia, queda de energia, queda no desejo, ou uma incapacidade de fazer as mesmas coisas que elas faziam e de levar a vida como elas levavam anteriormente.”

Créditos: Catherine Cordasco

Neste momento de pandemia que estamos enfrentando, o estresse surge como um sintoma frequente em diversas situações. De acordo com Ilan, durante o isolamento social há o acirramento de questões psicológicas como a ansiedade, o surgimento de angústia, do medo em relação ao futuro e também uma certa incapacidade de responder aos desafios do isolamento continuado.

A verdade é que, estamos tão absortos nos aspectos negativos que o estresse nos traz, que acabamos por desconsiderar seu papel importantíssimo no nosso corpo e até mesmo as consequências positivas. “O estresse é uma ferramenta de seleção natural fenomenal e, ao longo dessa caminhada do ser humano no planeta, desenvolvemos o mecanismo do estresse.”, afirma o vaidya Matheus Macêdo. “Então, estresse é um impulso natural. Não só é um impulso natural, é um impulso essencial. Se você é uma pessoa estressada, é graças a isso que você está aqui hoje.”

Ainda de acordo com Hans Selye, o estresse estaria dividido em três fases principais: a fase de alarme, de resistência e de exaustão. A fase inicial de alarme ocorre quando percebemos um risco ou ameaça e, nesta situação, o estresse surge como uma resposta positiva para agirmos.

“O problema é quando o estresse dura muito tempo e você entra em fase de resistência, quando você está esgotando os recursos do corpo para combater essa fase estressante. E, por último, a exaustão que pode levar ao colapso do organismo.”, esclarece Ilan. “A gente entende o estresse hoje só como algo negativo mas a vida é cheia de estressores. Então, o que vai pautar na verdade o estado de saúde ou doença é nossa resposta a esses estressores que estão presentes para todo mundo.”

Créditos: Dzana Serdarevic

Em resumo, nosso problema não está em produzirmos estresse, mas sim no fato de que estamos estressados o tempo todo e, portanto, este mecanismo não está mais desempenhando sua função primordial. “O estresse não é o problema, o problema é a forma como você lida com ele. E isso é tão mal trabalhado hoje em dia, que ficamos estressados por estarmos estressados.”, afirma Matheus. “Tudo isso vem do mesmo lugar, tudo isso é subproduto do mesmo problema. É você exagerando na dose. É você esquecendo como se usa o estresse e transformando o estresse em uma ferramenta horrorosa.”

Então, como podemos não apenas fazer as pazes com o estresse já acumulado, mas também lidar com as tensões em nossas vidas? Pode parecer cansativo falarmos disso em mais um texto, mas um primeiro passo para entender como o estresse se manifesta em sua vida é: a auto-observação.

De acordo com o Ashtanga Hrdayam, no capítulo sobre as rotinas diárias, a primeira coisa a ser feita ao acordar é se observar. Perceber como você está se sentindo, como foi a noite de sono e em qual ritmo será pautado o restante do seu dia. Para o vaidya Matheus, o mesmo processo de reflexão sobre si deve ocorrer momentos antes de dormir: isso pode ser feito evitando o contato com aparelhos eletrônicos, fazendo uma atividade de relaxamento ou tendo consciência do dia que passou.

Ao pararmos, pelo menos nas horas iniciais e finais do dia, e observarmos como estamos mental e fisicamente, conseguiremos desconstruir os mecanismos que causaram o estresse e, então, evitar que este se acumule ao longo do tempo.

Mas não só de auto-observação vive um ser desestressado! Combater o estresse acumulado a partir do corpo físico também é essencial. “Se você quer solucionar ou melhorar sua relação com o estresse, você tem que solucionar ou melhorar sua relação com seu corpo. O estresse ‘tatua’ o corpo físico e, ao longo do tempo com o estresse sustentado, o corpo vai marcando e marcando até que você tem um problema.”, afirma Matheus.

Para evitar esse acúmulo, o vaidya aconselha o pilar do Movimento: após um acúmulo de estresse constante, é importante descomprimir as tensões do corpo por meio de exercícios físicos. Uma das recomendações é sacudir todo o corpo de forma solta, livre e descontrolada por alguns minutos diariamente. Dessa forma será possível soltar a musculatura e aliviar o estresse.

Além dos demais Pilares da Saúde que têm papel indispensável no combate ao estresse, o psicólogo Ilan aponta mais um elemento importante: ter um projeto de vida. Definir um projeto pessoal — como ler um livro, fazer um curso, aprender uma nova língua ou tocar um instrumento musical — ajuda a colocar as coisas em perspectiva.

E, por fim, mas não menos importante: manter uma rotina. Principalmente durante o isolamento prolongado, ter uma rotina de hábitos saudáveis nos ajuda a manter o eixo e evitar que os desequilíbrios do dia a dia atrapalhem o nosso bem-estar. O estresse sempre estará presente nas nossas vidas, mas é a forma como lidamos com os estressores em nosso caminho que define nossa saúde física e mental.



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