Átma: autoconhecimento como fonte de saúde - VIDAVEDA

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08/09/2020
Átma: autoconhecimento como fonte de saúde

O Ayurveda e a importância de conhecer sobre si mesma para ter uma mente saudável

Por Alice Azara e Anelize Moreira, da Equipe de Escrita do Vida Veda

“Conhece-te a ti a mesmo.” Essa frase tão popular do filósofo Sócrates atravessa o tempo e segue atual. Se mantém como um desafio que pode parecer simples e fácil, mas que, pela complexidade que carrega, é algo digno de ser decifrado a vida toda. Muitos podem dizer: como assim? É claro que eu me conheço! Mas será mesmo?

Imagine que alguém pergunta quem é você… O que responde? Seu nome, sua profissão, seus gostos? Responde sobre a identidade que você construiu ao longo da existência? Se essas são as respostas que normalmente dá a essa pergunta, você pode estar com ideia equivocada sobre si mesma. Tudo isso pode não definir quem é você… Aliás, ouvi uma vez de uma amiga, quando perguntei como ela me definia, algo bem sábio: qualquer definição é limitar.

O estudo sobre si mesma é cotidiano e parece não ter fim, mas, à medida que avançamos, movemos o mundo junto com essa mudança. Saber com profundidade sobre si pode modificar a relação que construímos com nós mesmas, com os outros e com o mundo. Para isso, o mapa é um só: a auto-observação.

A auto-observação e o autoconhecimento são temas recorrentes aqui no blog. Em quase todo texto finalizamos com a famigerada dica: se observe. É claro que nem todos os problemas da vida podem ser resolvidos com esse simples (porém complexo) ato, mas, de acordo com o Ayurveda, muitos desequilíbrios do corpo partem exatamente da falta de compreensão ou do entendimento errôneo de quem você verdadeiramente é.

(Créditos: Vince Fleming, Unsplash)

Segundo Ashtanga Hrdayam 24:58, “Os sábios descrevem os seres humanos como tendo raízes no topo da cabeça e os galhos embaixo, então atuando nas raízes, as doenças podem ser curadas rapidamente.”

Nos últimos textos falamos de duas terapias da mente do Ayurveda: dhi e dhairya. Desta vez, trataremos da terapia que completa a trindade principal dos tratamentos mentais: atmadi vijñana. Assim como as demais terapias da mente, átma pode ser interpretado e traduzido de diversas formas. De acordo com o Vd. Matheus Macêdo, o sentido da palavra dentro do Ayurveda muitas vezes se faz confusa pelo entendimento que se dá por meio do viés religioso.

“Muitas vezes quando a pessoa lê sobre átma dentro do hinduísmo, do budismo ou de outro sistema religioso, isso pode levá-la a uma compreensão religiosa da ideia de átma. Como, por exemplo, às vezes a palavra átma é traduzida como ‘alma’.”, explica o vaidya Matheus Macêdo.

A grande questão que se apresenta ao traduzirmos átma como “alma” é a vasta possibilidade de entendimentos possíveis da palavra de acordo com o contexto social, religioso e cultural que se apresenta a cada pessoa. Desta forma, seguiremos, pouco a pouco, com a explicação trazida pelo Caraka Samhita.

Primeiramente, precisamos compreender átma não apenas como uma terapia, mas como um dos componentes da vida de acordo com o conhecimento ayurvédico. Seguindo o Caraka Samhita, a vida é a união de sharira, o corpo; indrya, os sentidos; satva, a capacidade de cognição; e átma.

O significado de átma pode ser complexo pela sua subjetividade, mas, de forma resumida, podemos entendê-lo como o conhecimento do Eu, o que você é de verdade. “Átma significa literalmente ‘aquilo que sou’. O átma não é aquilo que você vê, o átma é aquilo que você não vê.”, afirma Matheus. “Pensa em tudo que você tem e tudo que você pode ter, tudo que você pode considerar que é seu e tudo que você pode aplicar a palavra possessiva ‘meu’… Nada disso é você.”

Outro entendimento possível para a palavra átma parte de outros dois termos em sânscrito: viakta, aquilo que pode ser visto; e aviakta, aquilo que não pode ser visto, mas é capaz de observar. Ao compreender átma como um sinônimo de aviakta inferimos que o “Eu de verdade” não é algo que pode ser possuído, observado ou até mesmo experienciado, pois é aquilo que possui, que observa e que experiência.

Anteriormente já falamos sobre nos definirmos a partir das nossas posses no texto Você é o que você consome? e, ainda de acordo com o Caraka Samhita, grande parte das doenças vem exatamente destas identificações equivocadas que construímos ao longo da vida, também conhecidos como prajñaparadha.

“Se você não percebe que você é na verdade aviakta, aquele que observa tudo que acontece, você talvez se identifique com os objetos de percepção.”, afirma o vaidya. “Então, por exemplo, se eu me identifico com o corpo e eu acho que ‘eu sou o corpo’ existe o que chamamos de prajñaparadha, uma confusão, uma ignorância.”

(Créditos: Serrah Galos, Unsplash)

Depois desta excursão pelos Samhitas e uma enxurrada de palavras em sânscrito, podemos entender o seguinte: muitas vezes a raiz do desequilíbrioestá na ausência de uma investigação atenta de si. E esta investigação não se resume a encontrar novos hobbies, questionar se o seu emprego te faz realmente feliz ou se seus relacionamentos ainda fazem sentido em sua vida. 

É claro que aspectos como esses são importantes para a nossa saúde mental, mas o que a terapia de átma divijnánam propõe é que você é algo muito mais conciso e, ao mesmo tempo, muito mais complexo que isso: você é você, e isso basta. Por isso, a importância do pilar do Silêncio: é aquietando os turbilhões da mente que conseguimos ver com mais clareza quem somos.

E nesta investigação temos que ignorar a famosa grama do vizinho, porque ela pode ter necessidades de cuidado muito diferentes da nossa. Aliás, essa tarefa envolve até mesmo se desnudar de tudo que você já conhece sobre si. Se não tivesse ninguém para aplaudir ou para criticar, quais ações eu tomaria? Quais sonhos lançaria no mundo? 

Aceitar quem você é, sem apego e sem aversão, apenas observando as qualidades, defeitos, limites, o que te dá mais prazer ou descontentamento… esse pode ser um passo importante para ter mais felicidade, afinal só conseguimos ser livres verdadeiramente quando vivemos a nossa autenticidade. Se olhar nos olhos com honestidade é um ato de coragem e amor por si mesma. Que tal então começar agora, se perguntando: quem eu sou de verdade?



Comentários

  1. Graziele Fülber disse:

    Agradeço imenso as excelentes reflexões! Abração carinhoso família Vida Veda

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