Precisamos falar sobre a compulsão alimentar

“Quanto da sua energia está sendo gasta o dia inteiro pensando no que vai comer?”, questiona Christina Demant, psicóloga e especialista em transtornos alimentares

Por Alice Azara, da equipe de Escrita do Vida Veda, com a colaboração de Elieser Grota

Alerta de conteúdo sensível/gatilho: Este texto fala sobre transtornos alimentares, sintomas e experiências vividas por quem já enfrentou a compulsão alimentar.

Além das dúvidas enviadas pelo público do Vida Veda sobre Ayurveda, os 4 Pilares e as terapias ayurvédicas desconhecidas aqui no Ocidente, para nossa surpresa um tema que se sobressai de forma alarmante é a compulsão alimentar.

Como parar de comer demais? Como parar de consumir alimentos que me fazem mal? Como parar de comer por impulso? Como estabelecer uma relação mais saudável com meu corpo? Como parar de fazer dietas? Como lidar com a compulsão? Essas e muitas outras são perguntas, (geralmente formuladas por mulheres) que recebemos constantemente e que nos assombram pelo menos uma vez em nossas vidas. Você já parou para se perguntar se pode estar sofrendo com a compulsão alimentar?

Antes de falarmos sobre a compulsão, precisamos estabelecer um aspecto importante sobre este tema: se você sofre com a compulsão alimentar ou qualquer outro transtorno alimentar, isso não é sua culpa. Mais comum em mulheres, de acordo com a pesquisa Gender in Mental Health Research de 2005 feita pela Organização Mundial de Saúde (OMS), os transtornos alimentares têm diversas origens possíveis, porém uma delas impacta, em diferentes níveis, todas as mulheres: a mídia.

Em todos os meios de comunicação — e até mesmo nos nossos espaços de socialização — somos bombardeadas por inseguranças, incertezas e insatisfações quase compulsórias. Aos poucos, conforme vamos crescendo, “estar magra” se torna um elogio e “estar gorda”, motivo de vergonha. 

A quantidade e a qualidade dos alimentos que ingerimos deixou de ser um fator a ser levado em consideração para a nossa saúde, e muito mais um fator para nos questionarmos sobre como os outros estão nos julgando. As imagens em filmes, revistas, novelas e redes sociais passaram a ser lembretes de que, para os padrões de beleza inalcançáveis que nos oprimem, nossos corpos nunca serão bons o bastante… Você se lembra quando foi a última vez que se sentiu completamente confortável no seu próprio corpo?

A compulsão alimentar é apenas um dos transtornos alimentares existentes, assim como a anorexia e a bulimia. De acordo com a AMBULIM, o Programa de Tratamento de Transtornos Alimentares realizado pelo SUS, os transtornos alimentares são doenças psiquiátricas que se caracterizam por padrões de comportamentos alimentares inadequados que podem afetar tanto o consumo como a absorção dos alimentos.

O transtorno de compulsão alimentar tem em seu cerne a característica de episódios recorrentes de compulsão como, por exemplo, a ingestão excessiva de alimentos em um curto espaço de tempo, com a sensação de falta de controle durante os episódios; comer grande quantidades de alimento mesmo sem sentir fome física; sentir-se culpada, deprimida ou com baixa autoestima após comer demais; fazer estoques de alimentos e mantê-los escondidos ou, entre outros aspectos, preferir comer sozinha por sentir vergonha do quanto consome.

De acordo com Christina Demant, psicóloga especialista em transtornos alimentares e mindful eating, um dos fatores presentes na compulsão alimentar é a desconexão com o próprio corpo. 

“Por 20 anos da minha vida, eu sofri muito com o distúrbio da compulsão alimentar. Naquela época, eu não olhava muito para o meu interior, eu não tentava achar as respostas dentro de mim, do meu corpo, dos meus pensamentos. Eu estava muito focada nos padrões externos, tentando ter um corpo que talvez nunca pudesse ser meu… Afinal, a minha biologia é outra, minha estrutura é outra.”, conta Chris.

Depois de passar 20 anos buscando soluções mágicas para emagrecer, como ir a spas que prometiam o “corpo perfeito” em uma semana, fazer dietas restritivas, contar calorias e tomar remédios que davam o “poder” de emagrecer 12 quilos em um mês, Chris percebeu que esse caminho não estava lhe trazendo felicidade. 

“Eu passei por tudo isso na minha vida até que chegou um momento em que eu pensei, ‘Opa, peraí. Isso não está certo! Eu não estou tendo prazer na minha alimentação. Eu não estou tendo uma vida social. Quanta coisa estou me restringindo de fazer porque eu acho que eu não tenho o corpo A, B ou C…”, relembra Chris.

De fato, as consequências dos transtornos alimentares vão muito além dos aspectos visíveis no corpo. De acordo com o artigo Anorexia e bulimia — corpo perfeito versus morte, os transtornos alimentares afetam também funções cognitivas, emocionais e sociais; interrompendo o processo de desenvolvimento do paciente que, aos poucos, vai perdendo a capacidade de se relacionar consigo e com as pessoas à sua volta. E esse processo de distanciamento de si e dos outros não ocorre do dia para a noite, mas lentamente. Tão lentamente que muitas vezes é difícil identificar o transtorno alimentar quando ele se instala.

A compulsão alimentar, assim como outros transtornos, vai aos poucos consumindo a saúde física e mental do paciente por meio de rituais que se repetem diariamente.

 “Quanto da sua energia está sendo gasta o dia inteiro pensando no que vai comer, o que vai poder comer ou não, o que comeu, na culpa que está te trazendo ou no exercício que vai fazer para ‘compensar’ o seu excesso alimentar?”, questiona a psicóloga. São várias questões que, se nós não olharmos para dentro, vão nos consumindo e consumindo e nos tornando improdutivos em todas as outras áreas da vida.”

Mas então, o que fazer quando se está sofrendo com a compulsão alimentar ou conhece alguém que apresenta sintomas comuns? A principal resposta sempre vai ser: procure a ajuda de um profissional. Os transtornos alimentares são, como já falamos, doenças psiquiátricas e, por isso, precisam de tratamento apropriado! Entretanto, nunca é tarde para começarmos a construir uma visão mais amorosa sobre nosso corpo e ressignificar crenças limitantes que impactam nossa autoestima.

A psicóloga Chris recomenda uma prática que pode ajudar nesse processo: a autocompaixão. “Eu penso que só se consegue uma mudança positiva, uma mudança benéfica, se a gente faz essa mudança a partir do amor, e não da dor. Por isso que eu falo: acolha você mesma! Como você está? Onde você está? Como você é? De que você necessita? Acolha isso para depois traçar seu caminho.”

Imagine que uma pessoa bata na sua porta, toda suja e vestida em trapos. De que ela necessita? De um banho, roupas limpas. Não faria sentido oferecer um prato de comida para ela primeiro, certo? Esse é um exemplo genial que Christina utiliza para entendermos o processo de suprir nossas necessidades com aquilo de que realmente precisamos. Muitas vezes, nossa relação com a comida se baseia em uma resposta automática a sensações, emoções e desejos que não conseguimos decifrar porque não paramos para compreender nossas reais necessidades.

Para entender melhor como está nossa relação com a alimentação, a psicóloga propõe três exercícios que podem nos ajudar a construir uma atenção plena na alimentação:

  1. O que te impulsiona a comer? É sua fome ou o horário “ideal” de fazer as refeições? Você está comendo por prazer ou por que alguém disse que você deveria comer de 3 em 3 horas? Você está se forçando a comer algo por que disseram que é saudável ou evitando algum alimento por que “engorda” ou é “calórico demais”?
  2. O que te motiva a parar de comer? A quantidade de alimentos que você ingere te supre e satisfaz? Você acaba comendo mais do que sua fome por que está distraída? Ou você ingere mais ou menos do que sente que te satisfez por que acha que “precisa” comer dessa forma?

3.Qual é o seu sinal de saciedade? Você é capaz de perceber quando já se alimentou o suficiente para suprir sua fome?

A construção de uma relação saudável com a alimentação é constante, diária e, muitas vezes, difícil. Os transtornos alimentares não escolhem sexo, identidade de gênero, orientação sexual, etnia, idade, peso corporal ou nível socioeconômico para se manifestarem e, por isso, a vigília deve ser constante. Mas não se esqueça: você não está sozinhx!

Para acessar materiais educativos da ASTRAL (Associação Brasileira de Transtornos Alimentares) sobre transtornos alimentares, CLIQUE AQUI

Para saber onde conseguir ajuda e tratamento em diferentes regiões do Brasil, CLIQUE AQUI

Revisão: Elisabete de Carvalho Sposito/ Anelize Moreira

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