A revolução pelo autocuidado

Cuidar-se em um mundo cheio de demandas pode ser ato de resistência feminina. É essencial escutar os ciclos, fazer as pazes com o corpo e observar as necessidades para ter mais autonomia sobre a saúde.

Escrito por Anelize Moreira, gerente de escrita | Revisão: Laila Saber, diretora de operações do Vida Veda

Observe como você está ao longo de um dia, uma semana, um mês ou nas estações do ano. Em cada um desses momentos estamos diferentes. Se em um dia acordamos bem dispostos, alegres e com uma boa digestão, em outros, sentimos que a disposição, as emoções e os pensamentos já não são mais os mesmos.

Ou seja, tudo muda o tempo todo, tudo é impermanente, isso inclui a nossa saúde. Compreender e respeitar essas mudanças no nosso corpo é um dos ensinamentos do Ayurveda.

Assim como a natureza, nosso corpo funciona por meio ciclos. A mulher tem um guia importante: o ciclo menstrual. Todos os meses é convidada a se olhar e conectar-se com o próprio corpo. A menstruação é um processo tão intenso que dificilmente passa despercebido. É quase um chamado oficial do corpo com data marcada (ou prevista) para acontecer. É uma oportunidade de praticar outro ensinamento védico importante: a presença.

A ideia de ciclo é fundamental para o conhecimento ayurvédico. “Temos dois processos: dinacharya — as rotinas diárias e ritucharya — rotina sazonal. A mulher tem uma conexão mais forte e natural o que permite que ela tenha uma capacidade de perceber o próprio corpo diferente do homem. Se vocês têm um problema no ciclo, sabem que estão com algum problema na saúde. A menstruação é uma ferramenta poderosa de autopercepção”, diz o Vd. Matheus Macêdo.

Com a vida moderna, o excesso de tarefas, seja dentro ou fora de casa, foi ficando cada vez mais difícil parar e ter tempo para se conectar com esse processo interno. A reação do corpo nessas situações é gritar por atenção. Como? Por meio das sensações físicas e psicológicas, como as cólicas, nervosismo, enxaquecas, dores, TPM…

Cada ciclo é único. Se em um momento estamos mais introspectivas, com mais sono, emotivas, em outro ficamos mais expansivas, mais dispostas, mais cansadas, com mais desejo sexual…mas será que estamos dando espaço pra respeitar o que estamos sentindo?

E se o corpo continua a gritar, a lógica é tomar um remédio pra seguir em frente e silenciá-lo para dar conta de tudo que o mundo nos demanda. O corpo passa a ser encarado quase como uma obstáculo pra inúmeras demandas externas, ser mulher todos os meses passa a ser incômodo. Ignoramos os sinais de alerta do corpo e com isso aparecem doenças e depois cistos, ovário policístico, endometriose e por aí vai…

Por onde começar?

Fazer uma releitura sobre a relação com os ciclos, para que eles não sejam encarados de forma pejorativa pode ser um bom jeito de começar a ressignificar esse processo.

“É necessário compreender que o ciclo menstrual é um diferencial positivo e que não é algo externo que afeta a sua saúde, mas é interno, isso possibilita entender porque seu humor mudou, o porquê você está com cólica…A visão deixa de ser negativa para ser vista como uma oportunidade de auto-investigação. Será que eu posso fazer algo pra não ter esses sintomas pra além de tomar ibuprofeno?”, explica o médico ayurvédico.

De acordo com o texto clássico do Ayurveda, Caraka Samhita, a mulher no período menstrual deveria ficar de resguardo e não praticar atividade sexual. Se for feita uma interpretação machista, ela deveria ficar isolada e não fazer nada, mas em 2020 a interpretação deve ser adaptada a nossa realidade atual: no período menstrual, deve-se esquecer tudo que é externo e se voltar mais para dentro para se observar.

“É um lembrete para que a mulher possa todos os meses se aprofundar em si mesma. É um período de renovação, de deixar sair o que não tem mais função (simbolizado pelo endométrio) pra abrir espaço para o novo entrar na sua vida.”, segundo Matheus.

Matheus explica que essas orientações levam em conta a fisiologia ayurvédica. Não é recomendado fazer sexo durante o ciclo, porque a atividade sexual pode perturbar a tendência natural de saída da menstruação.

A falta de autocuidado pode vir acompanhado de culpa, mas ela é a primeira companhia que você precisa abandonar. Historicamente fomos ensinadas a cuidar da família, dos filhos, ou seja, para cuidar do outro. Porém, para estar saudáveis é preciso aprender a cuidar de nós mesmas e isso é um aprendizado constante. 

Diferente do que a indústria da beleza vende, autocuidado vai muito além do cuidado com a aparência. Ela passa por autopercepção do que é necessário naquele momento do dia, da vida.

Observar as emoções, sensações físicas, pensamentos, alimentação, sono, enfim, o que você precisa em cada um dos ciclos pode ser uma fonte rica de autoconhecimento.

“Autocuidado não é auto-indulgência. É autopreservação. E esse é um ato de bem-estar político.” — Audre Lorde, livro A Burst of Light (Uma explosão de luz, tradução livre).

O autocuidado é um ato revolucionário em uma sociedade que ignora a escuta, se for do próprio corpo então, nem se fala. Como a escritora, negra, lésbica e ativista Audre Lorde nos lembra, o autocuidado é uma luta importante e necessária. Se o seu corpo diz descanse e você dá essa oportunidade pra ele, respeitando as suas demandas com amor e coragem as mini-revoluções passam a acontecer todos os dias.

*Nesse texto quando usamos a palavra “mulher” para nos referir às pessoas que têm o aparelho sexual e reprodutor feminino, sem no entanto ignorar as questões de gênero que são importantes de serem abordadas para o avanço da saúde feminina, mas que compreendemos que vale um outro texto.

Nesse mês traremos as vozes de mulheres que irão falar sobre saúde feminina. Fique ligada!

https://www.youtube.com/watch?v=Un7_evG9mfo
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6 comentários em “A revolução pelo autocuidado”

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